2º Encontro MM: saiba mais sobre o que foi debatido na mesa sobre Educação Equitativa

13 de fevereiro de 2025

Atualizado em: 13/02/2025

O Instituto Sidarta realiza anualmente o Encontro Mentalidades Matemáticas, evento que reúne pessoas pesquisadoras e profissionais da Educação de todo o Brasil. A edição de 2024 aconteceu em setembro, na Grande São Paulo, e recebeu cerca de 150 pessoas interessadas na promoção de uma educação matemática equitativa, mais aberta, criativa e visual.

Educação equitativa: garantindo condições adequadas para a aprendizagem

O painel Educação equitativa: garantindo condições adequadas para a aprendizagem contou com as seguintes debatedoras:

  • Liliana Costa, professora do Colégio Pedro II – Rio de Janeiro
  • Eurivalda Ribeiro dos Santos Santana, professora do curso de Licenciatura em Matemática (UESC)
  • Jaqueline Araújo, professora no curso de Licenciatura em Matemática (UFG)
  • Solange Hassan Ahmad Ali Fernandes, professora do Programa de Pós-Graduação em Educação de Ciências e Matemática (IFSP)

Confira a íntegra da mesa no vídeo abaixo ou leia o resumo a seguir.

“Todo mundo é capaz de aprender Matemática em altos níveis, com as condições adequadas”

A professora Liliana Costa foi a responsável pela mediação da mesa. Antes de passar a palavra para as outras debatedoras, ela abriu a conversa citando uma das frases que fundamentam a abordagem Mentalidades Matemáticas: “todo mundo pode aprender Matemática em altos níveis”.

Conduzindo o debate rumo ao tema da mesa, Liliana ressaltou a importância de se considerar a diversidade e também as grandes desigualdades de um país extenso como o Brasil. Para ela, todo mundo é capaz de aprender Matemática em altos níveis, desde que haja as condições adequadas.

A professora do Colégio Pedro II concluiu sua fala de abertura defendendo que a garantia da equidade na educação depende da atenção concedida a um tripé formado por práticas pedagógicas, políticas públicas e formação de professores.

Objetivos, metodologias e ações

Eurivalda Santana, que atua na formação de docentes, deu seguimento à conversa listando também três pilares que considera importantes para uma filosofia de trabalho pautada na equidade. São eles:

  • objetivos de aprendizagem;
  • metodologias de ensino, que darão suporte aos objetivos;
  • ações pedagógicas.

A professora exibiu alguns suportes teóricos, como os estudos de Tonya Gau Bartell, Rochelle Gutierrez e John Rawls, que ajudam a entender o ensino de Matemática como uma ferramenta para promover justiça social. Baseada nestes estudos, ela destacou dois eixos e quatro dimensões para que a equidade ocorra:

  • Eixo dominante: envolve as dimensões de acesso e de conquista. Eurivalda explicou que acesso não se reduz ao fato de o estudante frequentar a escola, mas também está relacionado a dar a ele o acesso ao conhecimento e a uma pessoa docente qualificada, o que deve impulsionar as conquistas e as realizações pessoais do estudante.
  • Eixo crítico: envolve as dimensões de força, que está relacionada a empoderar o indivíduo para que possa atuar na solução de problemas da vida real de forma crítica e ativa, e de identidade, para que o estudante se sinta representado no espaço em que está, e nas ações pedagógicas.

No final da sua fala, a professora exemplificou o que chama de “Momentos de Matematizar”, isto é, oportunidades de relacionar os conhecimentos matemáticos a partir de um tema proposto. Eurivalda falou sobre seu trabalho em escolas campesinas, com 46 estudantes que viviam no campo mas não tocavam na terra. O processo envolveu toda a comunidade e as famílias das crianças e, além da Matemática, disciplinas como Geografia e Ciências para pesquisar e compreender a produção de uma horta. Depois, promoveram a construção de uma horta na escola, com medições e plantio.

O que é o “normal”?

Jaqueline Araújo levou à mesa algumas experiências de pesquisa e vivências relacionadas à educação matemática na perspectiva inclusiva, com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento de uma educação matemática cognitiva, afetiva e inclusiva, no contexto da educação básica.

A pesquisadora listou funções relevantes do ambiente escolar, como o propósito de formar pessoas comprometidas com o desenvolvimento social, científico e ambiental, ensiná-las a refletir com criticidade, a raciocinar e a resolver problemas e, por fim, proporcionar meios para que crianças e jovens dominem os elementos culturais produzidos pela humanidade de forma quanti-qualitativa.

Para que essa educação seja possível, segundo ela, o diálogo e o conflito sócio-cognitivo são muito importantes. É preciso que haja a coexistência de diferentes pontos de vista, dúvidas, debates e discussões pautadas no respeito mútuo, com a mediação do docente pesquisador.

Jaqueline expôs alguns aspectos da evolução biológica do cérebro e dos processos cognitivos, que ajudam a explicar, em parte, como se dá o aprendizado. Mas enfatizou que o que acontece no cérebro é resultado da interação biológica com os processos social e cultural. Instrumentos psicológicos permitiram aumentar as capacidades de atenção, memória, lógica, pensamento, planejamento e resolução de problemas. Se, para a antropologia, tudo o que se aprende é tradição, o conjunto das tradições forma o que chamamos de cultura.

A professora introduziu a antropologia para ajudar a construir e/ou definir o que seria uma educação matemática inclusiva, partindo de uma definição de Vygotski, que diz que a cultura da humanidade é desenvolvida para um indivíduo considerado “normal”, ou padrão. Ferramentas e tecnologias são produzidas para um determinado tipo de sujeito, que não tem qualquer deficiência sensorial ou intelectual, por exemplo. O resultado é que é preciso adaptar o mundo e seus instrumentos para um percentual reduzido da humanidade.

Por fim, Jaqueline mostrou alguns exemplos de atividades, vídeos e aplicativos para todas as crianças, incluindo participantes com baixa visão, deficiência auditiva ou aquelas que fazem parte do espectro autista.

Inclusão vs. Equidade

Solange Fernandes contou que despertou sua consciência para a equidade a partir de uma experiência pessoal. Ela, que fazia lousas lindas e coloridas para ilustrar as aulas de geometria, ficou desconcertada quando se deparou com um aluno deficiente visual. A partir daquele momento, precisou pensar em como lidar com a situação.

Ela foi fazer a sua pesquisa em algumas escolas que existiam à época para atender apenas a pessoas com deficiência visual, o que já propõe uma segregação implícita. Mais madura, ela entende agora que não foi fácil chegar ao ponto em que estamos. Hoje, a discussão é amplificada, mas o conceito de inclusão segue sendo uma resposta à exclusão que existe. “Inclusão é o processo que a gente cria para ajudar a superar barreiras que limitam a presença, a participação e a conquista dos estudantes”, falou.

Em vez de falar em inclusão, ela prefere pensar em equidade, ou seja, em garantir que existam processos justos, de modo que a educação de todos os estudantes tenha, de fato, igual importância. Não se trata de bondade, e sim de um direito básico.

Solange descreve a diferença como uma característica inerente à humanidade: pretos, brancos, meninos, meninas, ricos, pobres, pessoas com ou sem deficiência… Mas, provoca ela, se a cultura dominante considera a diferença como algo a ser atendido e superado, é porque ainda existe uma ideia do que seria o dito normal. E isso se estende ao sistema educacional para o estudante normal, aquele que consegue usar o livro didático sem dificuldades, atender ao currículo, chegar “bem vestido” e bem alimentado. Para a professora, o sistema é montado para servir e reproduzir a sociedade.

Sistemas de recuperação, aulas paralelas e de reforço muitas vezes alimentam estigmas e transferem a responsabilidade para aqueles estudantes que desviam da norma padrão, como se a ajuda que eles precisam fosse, na verdade, para aproximá-los do status quo. Solange sugere que talvez a deficiência esteja nos educadores, que estão com a visão limitada ao que seria o normal. Ela alerta para o perigo do que chama de círculo vicioso da recuperação, que justifica o fracasso do aluno como se fosse uma patologia.

E o que fazer? Como criar uma escola que os estudantes querem frequentar e onde sentem-se incluídos? Como modificar os sistemas existentes de classificação dos estudantes e respeitar a diversidade?

Em primeiro lugar, é preciso entender que conceitos associados ao aluno padrão são obstáculos a uma experiência equitativa, que considera as diferentes maneiras de aprender, em função de diferentes experiências de vida, culturas e estilos cognitivos. É necessário buscar caminhos para construir currículos e práticas mais flexíveis.

Solange defende substituir o termo “adaptação” pela palavra “construção”: “se eu, como educadora, adapto, dou jeitinho, eu mantenho aquele aluno refém do que é o tal normal, e isso nem sempre funciona para ele.” Ela reforça a importância da escuta, porque muitas vezes é o estudante que, vai sugerir o que funciona para ele.

A premissa deve ser atender a todo mundo. Para ilustrar, Solange comparou uma aula a um buffet de self-service, em que “quem é vegetariano come, e quem quer carne come”. Da mesma forma, ela acredita ser importante oferecer Matemática para de diferentes formas: com cores, sons, músicas, movimentos, superfícies táteis. Cada estudante da turma vai escolher as ferramentas com as quais se identifica mais. Um aluno surdo provavelmente escolherá superfícies táteis e recursos visuais, enquanto um aluno com visão limitada recorrerá a recursos sonoros, mas aqueles que enxergam ou ouvem bem também acessam essas ferramentas.

No fim das contas, o importante é proporcionar ferramentas para que todas e todos estejam aptos para aprender em grupo com autonomia, respeitando as singularidades do desenvolvimento cognitivo de cada pessoa. Construir essa sala de aula para aquela turma, não tem template. Para Solange, o segredo talvez seja mudar a forma de ensinar e as tarefas propostas.


Mentalidades Matemáticas

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