‘Após a pandemia, nenhuma disciplina voltará a ser ensinada do modo tradicional’, diz Viana

Diretor-geral do IMPA participou do webinar ‘Como ensinar a matemática do futuro?’, com Jack Dieckmann (Universidade de Stanford) e Maitê Salinas (Colégio Sidarta)

“Quando você ouve falar em matemática, o que vem a sua mente?”, perguntou Jack Dieckmann, diretor de pesquisa do Youcubed da Universidade Stanford (EUA), no webinar “Como ensinar a matemática do futuro?”. “’Assustadora’ e ‘ansiedade’ são algumas das respostas que costuma-se ouvir”, completou Dieckmann no evento virtual do Programa Mentalidades Matemáticas, promovido pelo Instituto Sidarta, na quinta-feira (28). Ao lado do diretor-geral do IMPA, Marcelo Viana, e da professora de matemática do Colégio Sidarta, Maitê Salinas, ele apontou que o estigma negativo que a matemática tem no imaginário popular pode ser explicado pelo fato da matemática escolar não refletir a “natureza viva” da disciplina. 

Mediado por Tatiana Klix, diretora do site de educação Porvir, o webinar, acompanhado por mais 650 pessoas, partiu do momento atual, em que a matemática ganhou destaque para explicar os rumos do novo coronavírus, aterrissando no conteúdo ensinado em sala de aula. 

Dieckmann comparou as duas visões da disciplina. “A matemática é uma ciência viva, que desenvolve novos conhecimentos por meio dos estudos de padrões e sua prática é baseada em questionamentos e conjecturas. É uma disciplina para aqueles com curiosidade sobre o mundo real e imaginário”, comentou. A matemática escolar, no entanto, é uma experiência completamente diferente. O currículo não reflete sua natureza dinâmica. Suas práticas são ultrapassadas, dependentes de memorização de procedimentos e fórmulas sem significado. “Os estudantes se sentem pressionados para resolver cálculos rapidamente e quando cometem erros, perdem a confiança. Não é surpresa tantos alunos abandonarem a disciplina”, avaliou. “Transformar a matemática da escola para que ela seja como a disciplina: aberta, visual, criativa. E acessível a todos. Essa é a missão do Youcubed.” Com práticas que desenvolvem o protagonismo e criatividade do aluno e atividades que incentivam um raciocínio profundo e cuidadoso, a plataforma caminha para o ensino da “matemática do futuro”. 

‘Estamos ensinando a matemática do século XIX’, diz Viana

Além de métodos de ensino ultrapassados, outro impasse para o avanço da disciplina no Brasil é a grade curricular. Temas importantes para a compreensão do mundo atual como a lógica, a estatística e a probabilidade estavam praticamente ausentes das salas de aula, apontou Marcelo Viana.

Ele relembrou a contribuição do matemático alemão Felix Klein (1849-1925). No início do século XX, Klein compreendeu que os currículos escolares de seu país estavam parados no tempo e fez um grande esforço para atualizar a disciplina, levando para a sala de aula a matemática desenvolvida durante todo o século anterior, no qual a Alemanha era um país de vanguarda. “Hoje acho que vivemos a mesma situação, estamos ensinando a matemática do século 19 – na melhor das hipóteses – nas escolas”, criticou. Ele acredita que a escola não está munindo os jovens com ferramentas para entender o mundo.

Viana apontou que a geometria, por exemplo, desempenha o papel de “uma janela para entender o mundo”, por seu aspecto visual. “Uma área que custa a chegar na sala de aula, é o que chamamos de combinatória, a base da ciência da computação”, afirmou. “Tenho filhas e percebo como o lúdico e a motivação são palavras chaves para atrair o interesse das nossas crianças. O mundo que vivemos tem muita informação e precisamos apresentar a matemática de uma forma que se conecte com os interesses da criança”, afirmou.

Dieckmann reforçou a emergente importância de se trabalhar com dados nas escolas, para que os jovens adquiram a habilidade de entendê-los e utilizá-los. “Os dados estão em toda parte, 90% dos dados mundiais foram criados nos últimos dois anos. Este novo mundo exige decisões mais complexas e a necessidade de analisar dados não está mais confinada à engenharia ou programação”. Ele lamentou o fato de a matemática escolar estar arraigada nos anos 50, com pouco utilidade prática no futuro. 

Professora usou gráfico das Covid-19 para explicar isolamento para alunos

Professora de matemática do Colégio Sidarta e formadora do Programa Mentalidades Matemáticas, Maitê Salinas aproveitou o contexto de pandemia para estreitar a relação dos alunos com essa nova gama de informações. Nas aulas à distância que ministra para uma classe do 8º ano do Ensino Fundamental, ela propôs que a turma analisasse gráficos de progressões lineares e exponenciais. 

Um dos pilares de sua prática é incentivar a investigação, para que os alunos sejam protagonistas do conhecimento. Para manter o engajamento, os alunos precisam trocar ideias, pesquisar e perceber que a construção conhecimento acontece coletivamente. “É fundamental que tenham confiança, participem sem medo, em um ambiente seguro de aprendizagem. Sintam-se seres matemáticos”.

A motivação para preparar a aula foi impacto do isolamento social nos alunos. “Ficaram muito angustiados. Eu preciso apresentar um conteúdo, mas também acolher esse sentimento. Como fazer isso on-line?”, se perguntou. De início, a professora apresentou um contexto histórico, com tabelas de dados desde século XIX e os gráficos atuais, como modelagens e simulações matemáticas. 

A partir disso, apresentou progressões aritméticas com recursos visuais. A continuidade da aula deu-se com perguntas e  participação dos alunos. “É um momento muito importante para manter o ambiente seguro. Os alunos irão trazer todas suas ideias e é preciso acolhê-las”, afirma.  Uma das estratégias do programa é o uso de cores, como um código para facilitar o entendimento. Os alunos perceberam que a progressão aritmética produzia um gráfico com curva linear.

Ao mostrar gráficos similares aos da contaminação pela Covid-19 em progressão exponencial, pediu que os alunos analisassem as diferenças, e eles apontaram que o aumento se dava pela multiplicação. A comparação entre os dois gráficos demonstrou a dimensão da contaminação. Com isso, a turma  discutiu o significado da expressão “achatar a curva”, que tanto repetem as notícias, e a importância de medidas restritivas para que o sistema de saúde possa atender as pessoas. Compreendendo a dimensão da pandemia, os alunos ficaram mais conformados com o isolamento social. Maitê usou a matemática para acolher a angústia dos estudantes. Veja a matéria do blog sobre o vídeo da professora Maitê.

O exemplo exposto por Maitê, de como ela usou o vídeo como recurso numa aula à distância, reforça um dos pontos abordados por Viana no início do webinar. Para ele, as mudanças provocadas pela pandemia na educação não são provisórias. “Nenhuma disciplina, em particular a matemática, voltará a ser ensinada do modo tradicional”. Mas o matemático destaca que ainda que a tecnologia seja uma aliada no ensino a distância a interação humana é fundamental. “Não vamos poder substituir a presença do professor na sala de aula”, pontuou. 

O webinar ‘Como ensinar a matemática do futuro?’ teve o objetivo de provocar reflexões sobre a educação no momento difícil em que vivemos em meio a uma pandemia. Novos encontros virtuais vão acontecer no Facebook do Mentalidades Matemáticas. Fique ligado! E se você perdeu este debate é só clicar aqui para conferir o webinar na íntegra.

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1 Comentário

  • Boa noite, Foi ótimo , parabéns para os palestres. Pena não conseguido o certificado, pois quando chegou no final me perdi aí não consegui mais. Márcia

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