Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência é celebrado nesta terça-feira (11)

Ativa nas discussões de gênero, matemática Carolina Araujo fala sobre desafios enfrentados pelas mulheres na área 

A ausência de referências e reconhecimento, os estereótipos enraizados na sociedade e os desafios com a maternidade aprofundam a falta de equidade de gênero na matemática e nas ciências exatas em geral. Para ampliar as discussões sobre o tema e incentivar ações de inclusão, a UNESCO criou, em 2015, o Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência, celebrado nesta terça-feira (11).

O afastamento das meninas começa na sala de aula ou em casa, se aprofunda ao longo dos anos e gera um desequilíbrio evidente em universidades e centros de pesquisa. Dados apurados pelo portal de notícias G1, em julho de 2019, mostram que as mulheres não chegam a 12% dos bolsistas de produtividade em pesquisa do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) em matemática, probabilidade e estatística. No nível 1A, o mais alto em reconhecimento e valor de bolsa, elas são menos de 10%. Voltada para professores pesquisadores de universidades, as bolsas de produtividade em pesquisa são como uma espécie de reconhecimento, financiando gastos de produção com viagens a congressos e divulgação do trabalho. 

Voz ativa da comunidade matemática nas discussões sobre gênero, a pesquisadora do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) Carolina Araujo afirma que a representatividade feminina na pesquisa científica diminui conforme aumentam os níveis de instrução. Em entrevista ao jornal O Globo, ela citou um levantamento da pesquisadora Christina Brech, que mostra que as mulheres representam 42% dos ingressantes na graduação, 27% entre os alunos de mestrado e 24% entre os de doutorado nos cursos em matemática do Brasil.

Organizadora do Encontro Brasileiro de Mulheres Matemáticas, realizado no IMPA em 2019, e integrante do comitê organizador do World Meeting for Women in Mathematics (WM)², evento satélite do Congresso Internacional de Matemáticos (ICM 2018), Carolina acredita que a ideia de que mulheres não podem fazer algumas atividades têm raízes profundas. “O preconceito de que matemática é coisa de homem vem desde a infância”, afirma. 

Carolina Araujo organizou, em 2019, o Encontro Brasileiro de Mulheres Matemáticas

A maternidade é outro fator que impacta a carreira das mulheres em todas as profissões, mas em áreas em que elas já são minoria existe menos empatia e acolhimento. Mãe de um menino de três anos, Carolina destaca que as mulheres ainda ficam sobrecarregadas com os cuidados com a casa e a família e acabam, muitas vezes, excluídas das atividades profissionais. “Uma possibilidade para melhorar o quadro é construir ambientes mais acolhedores para mães. Felizmente, vários colegas têm se sensibilizado.” 

Filha de um casal de engenheiros, a pesquisadora, que só teve uma professora mulher em toda a vida acadêmica, aponta que a falta de modelos nas ciências exatas agrava o afastamento de jovens meninas da área. “O fato de ter tido uma mãe engenheira construiu um modelo de mulher de exatas para mim. Mas tenho consciência que isso é uma exceção. Quando você pensa num cientista, é muito difícil que a primeira ideia que você vai ter é de uma mulher fazendo ciência.”

Para Carolina, a situação piora com a falta de estímulo para as meninas se aperfeiçoarem em matemática nas escolas. Ela cita um estudo, apresentado durante encontro latino-americano de mulheres matemáticas no Chile, em que estudantes de licenciatura que dariam aula no ensino fundamental tinham que analisar o caso de uma criança que estava enfrentando dificuldades nas aulas de matemática e dar um diagnóstico sobre a possível recuperação dela. O caso era o mesmo, só mudavam o nome. Os que receberam o caso com o nome de uma menina eram muito mais pessimistas em relação ao sucesso da aluna. “É algo que está, de alguma forma, no nosso inconsciente. Temos que estar sempre atentos para não passar isso para as meninas”, afirma.

A pesquisadora da Universidade Stanford e autora do livro “Mentalidades Matemáticas”, Jo Boaler, relata experiência semelhante. “O conjunto de trabalhos sobre ‘ameaça do estereótipo’, liderado por Claude Steele, mostra claramente o dano causado por ideias estereotipadas. Steele et al. (2011) mostraram que quando meninas receberam a mensagem de que um teste de matemática resultava em diferenças de gênero, elas tinham desempenho inferior, ao passo que meninas que não recebiam tal mensagem apresentavam o mesmo desempenho que os meninos no mesmo teste.”

O cenário ainda é difícil, mas Carolina vê sinais de mudanças nos últimos anos graças às redes criadas pelas mulheres matemáticas. “Acho que a gente está conseguindo romper com um silêncio. Não se falava sobre isso até um tempo atrás. Temos realizado vários debates e mesas redondas por todo o país.”

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