É importante acreditar e estimular o potencial dos alunos 

Conheça estratégias para aplicar este conceito fundamental do Mentalidades Matemáticas na sala de aula

Professor, você acredita no potencial dos seus alunos e os estimula? Reflita e pense nas suas atitudes antes de responder. Não estamos falando de elogios excessivos, mas sim de encorajamento e valorização dos esforços. Uma frase de incentivo, um olhar de confiança, um sorriso, podem transformar a trajetória de um estudante. Esse é um dos princípios da abordagem Mentalidades Matemáticas, desenvolvida por Jo Boaler, professora de Educação Matemática da Universidade Stanford. Vamos mergulhar neste conceito a partir de uma história vivida por Boaler em casa.

Sua filha tinha cinco anos quando percebeu que o professor não acreditava em seu potencial: dava desafios de matemática mais difíceis para os outros alunos. A crença da menina em si mesma foi abalada, afetando sua aprendizagem por anos. Com o apoio dos pais e outros professores, ela foi aos poucos desenvolvendo a mentalidade de crescimento e passou a gostar de matemática. Para chegar lá, Boaler e os professores buscaram incentivá-la com frases, como “que ótimo que você aprendeu isso” ou “adoro o jeito que você está pensando o problema”. 

Nada de elogios genéricos do tipo “como você é inteligente”. A estratégia é focar na forma como o aluno chegou ao resultado ou enfrentou o desafio. Por outro lado, quando a criança erra ou não consegue terminar um exercício, é pouco produtivo dizer alguma mensagem negativa ou que está errado. Jo Boaler recomenda entender sua forma de pensar e trabalhar com ela, respeitando seu tempo para criar hipóteses, com o cuidado para não criar dependência, em que a criança busca a ajuda de pais ou professores diante de qualquer obstáculo. Se mesmo assim o exercício não for resolvido, foque na atividade. “Você ainda não aprendeu as estratégias que precisa, mas logo aprenderá.”

No artigo “Quando Você Acredita nos Alunos, o Desempenho Deles Melhora”, Jo Boaler cita dois estudos que mostram o impacto da confiança dos professores nos alunos. O primeiro deles é uma polêmica pesquisa realizada por Rosenthal e Jacobs, em 1968. No início do ano letivo, após um teste, escolheram um grupo aleatório de alunos e disseram aos professores que esses estudantes tinham capacidade intelectual maior do que os outros – o que não era verdade. Ao final do ano, esses alunos tiveram melhores resultados nos testes de QI. Para Boaler, esse estudo é uma ilustração poderosa de que as expectativas e convicções dos professores sobre os alunos são importantes.

Ela também destaca uma pesquisa mais recente desenvolvida por Cohen e Garcia em 2014. Centenas de alunos do Ensino Médio escreveram redações e receberam comentários e correções. Entretanto, metade leu uma mensagem a mais – uma frase. Os professores não souberam quem recebeu a frase. Um ano depois, os alunos que receberam essa frase tiveram notas mais altas. Qual era a frase? “Estou dando esta devolutiva porque acredito em você.” Esse estudo mostra como uma única mensagem de incentivo ao aluno é muito poderosa.

Mais do que um frase, um canal de comunicação, como o diário de matemática do Curso de Férias do Programa Mentalidades Matemáticas, é um exemplo de ferramenta para motivar os alunos e entender como o conteúdo está sendo apreendido. Diariamente, os alunos registram suas atividades, impressões e sentimentos. Os professores respondem a perguntas, sempre valorizando e incentivando o processo de aprendizagem e celebrando conquistas. O resultado é muito positivo, como contamos na matéria do blog “Diários de matemática revelam aprendizados do Curso de Férias”.

É ainda mais importante passar mensagens positivas a alunos com dificuldades ou desmotivados. E lembrar que se alguém leva mais tempo para resolver um exercício, não é um sinal de problemas de aprendizagem – o que é difícil em um sistema de ensino que privilegia a velocidade. Alunos que tiveram experiências ruins com a matemática frequentemente têm medo de se arriscar ou errar. Um bom ensino, com boas expectativas de pais e professores, pode melhorar seus desempenhos.

Essas atitudes também impactam a promoção da equidade em sala de aula. Jo Boaler defende cuidadosa atenção às mulheres, não brancos e outras minorias, que têm que enfrentar preconceitos e estereótipos. “Alguns lidam com barreiras e desvantagens adicionais e devemos enfrentá-las para alcançarmos uma sociedade mais equitativa. Os professores precisam usar mensagens solidárias como, você é capaz, acredito em você, matemática é uma questão de esforço”, afirma a professora.

Não é tarefa fácil desconstruir uma prática, ainda mais quando foi dessa maneira que todos aprendemos. Acreditar no potencial dos alunos é o começo, mas a mudança de atitude em sala de aula tem de vir com outras ações. É preciso envolver as crianças com um ensino que privilegie a matemática aberta, flexível, que incentive a criatividade, valorize os erros no processo de aprendizagem e os benefícios do esforço. Para Jo Boaler, a mudança de comportamento dos professores pode ter resultados inspiradores. “Você pode ser a pessoa que muda o jogo para os alunos e abre seu caminho de aprendizado. Muitas vezes, basta apenas uma pessoa – alguém que os alunos nunca esquecerão.”

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