Estudo mostra como fatores sociais afetam o aprendizado da matemática

18 de janeiro de 2021

Atualizado em: 22/12/2023

Pesquisa feita na Flórida analisou dados de mais 700 mil alunos, de 9 a 14 anos, entre 2002 e 2011

Uma análise do desempenho em matemática de todos os estudantes de escolas públicas da Flórida (EUA) adicionou mais camadas à já conhecida noção de que não são naturais as diferenças de desempenho entre meninas e meninos a partir da pré-adolescência. Segundo o estudo, a queda de desempenho no equivalente ao Fundamental 2 é mais pronunciada entre as meninas de famílias brancas – e praticamente não existe entre as de famílias negras e pobres.  

Essa diferença é geralmente atribuída à reprodução de estereótipos de gênero (como a ideia de que matemática e ciências são “coisa de menino”), e não a qualquer fator biológico. No Brasil, a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP) já apontou que existe queda de rendimento semelhante na mesma idade. 

O estudo, feito por quatro pesquisadores de três universidades, demonstrou que o peso dos fatores sociais não é igual para todas as meninas. Seu pulo do gato foi segmentar as crianças por raça e cor.  

Segundo os pesquisadores, entre meninas negras e pobres da Flórida, em média não se percebeu queda de desempenho na pré-adolescência. A queda média no desempenho na disciplina é puxada principalmente pela concentração do desinteresse entre meninas brancas e ricas. No caso das garotas negras, elas se saíam até melhor do que os garotos de famílias semelhantes.

Foram examinados mais de 700 mil registros da história de estudantes de 9 a 14 anos nas escolas da Flórida entre 2002 e 2011, cruzados com informações das certidões de nascimento. Com isso, foi possível acompanhar virtualmente toda a trajetória escolar de cada criança no Fundamental 2. 

Tanto em famílias brancas quanto negras, o estudo apontou que as dificuldades enfrentadas pela família pesaram mais no desempenho dos meninos do que no das meninas. Esses fatores incluem má nutrição, falta de segurança e ausência de ao menos um dos pais. Quando investigados apenas os dados de jovens de famílias negras, as meninas se saíram melhor do que os meninos, em comparação ao que ocorria nas famílias brancas. Entre as meninas de famílias negras, não houve diferenças pelos níveis de renda.

A pesquisa também procurou identificar as famílias com características de preferência aos meninos: as que têm apenas meninas e o último filho é do sexo masculino. Nas famílias brancas de alta renda com essas características, as irmãs mais velhas têm desempenho muito pior do que o do irmão caçula – mesmo havendo mais recursos para investir na educação das crianças. 

Nas famílias negras e pobres de características semelhantes, isso não acontece. A própria falta de recursos delas para investir na educação dos filhos acaba anulando a diferença no desempenho entre meninos e meninas. 

As autoras levaram em conta também o preconceito contra meninas nas famílias (termo conhecido como boy-biased families) a partir de outras estimativas que mostram que pais que tendem a preferir ter filhos homens afetam o desempenho das jovens. A presença do preconceito é estudada através de outro fenômeno que associa ao número de filhos por família, que pode ser maior quando o primeiro a nascer é do sexo feminino – um possível indicador da manifestação do preconceito.

Há diversos fatores que podem explicar essas diferenças, segundo os autores. Uma das hipóteses é de que a atribuição de papéis “apropriados” para garotas, como a maternidade, aparece com mais força em famílias brancas abastadas. Nessas famílias, a possibilidade de investir mais no futuro dos filhos acabava reforçando esses estereótipos, ao invés de equalizar o acesso de todos os filhos.

Segundo os autores, esses resultados reforçam a ideia de que as diferenças se devem às normas de gênero, mas também sugerem que existe uma “transmissão diferente” dessas normas entre famílias de características sociais diferentes. 

No Brasil, ainda não foi feito estudo semelhante, então seria precipitado supor que os fatores que influem no Brasil sejam os mesmos. 

O artigo foi escrito pelos pesquisadores Gaia Dossi (London School of Economics), David Figlio (Northwestern University), Paola Giuliano (University of California) e Paola Sapienza (Northwestern University). Foi publicado nesta semana pelo National Bureau of Economic Research, um repositório público de estudos econômicos mantido pelo governo dos Estados Unidos. 

Webinar “Matemática e Gênero na mesma equação” 

Em junho de 2020 transmitimos o webinar “Matemática e Gênero na mesma equação”. Promovido pelo Instituto Sidarta, o encontro virtual contou com a participação de Sandra Unbehaum, coordenadora do Departamento de Pesquisas Educacionais da Fundação Carlos Chagas; Ana Camargo, Gerente de Projetos no Ismart (Instituto Social para Motivar, Apoiar e Reconhecer Talentos); e Juliana Nascimento, Professora do Ensino Básico da Escola Estadual Henrique Dumont Villares (SP). O encontro abordou a desigualdade de gênero nas ciências exatas e debateu formas de resolver essa equação ainda no Ensino Básico com a adoção de práticas inclusivas. Confira:


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