A incrível jornada do aprendizado matemático

07 de junho

Tentar entender os mecanismos que levam ao real aprendizado da matemática foi uma das maiores missões de Gérard Vergnaud. O francês, formado em psicologia e doutor em educação matemática, partiu deixando um extenso legado aos professores. Em sua homenagem, o Mentalidades Matemáticas recorda um pouco da sua trajetória neste texto.

Discípulo de Jean Piaget

Além de ter ensinado muita gente, Vergnaud também aprendeu com grandes mestres. Um deles é ninguém menos que Jean Piaget, considerado um dos maiores pensadores do século XX, especialmente no campo da educação. Sua grande contribuição na área foi o estudo do raciocínio lógico-matemático. 

Embora não fosse pedagogo – o suíço era formado em biologia –, Piaget dedicou-se à observação rigorosa do processo de aquisição do conhecimento pelo ser humano, em particular durante a infância. Um prato cheio para Vergnaud, que foi aluno de Piaget no doutorado. Ele declarou à Nova Escola:

“Jean Piaget disse que o conhecimento é uma adaptação a situações nas quais é necessário fazer algo. Por isso, se não confrontamos as crianças com situações nas quais elas precisem desenvolver conceitos, ferramentas, limites, elas não têm razão para aprender. Isso vale para a escola, mas também para a vida, para a experiência profissional.”

Um novo olhar para o aprendizado

O trabalho mais famoso de Gérard Vergnaud é a Teoria dos Campos Conceituais. “Ela é fundamental para ensinar a disciplina [matemática], pois permite prever formas mais eficientes de trabalhar os conteúdos”, disse também ao portal brasileiro.

O método de Vergnaud reúne ideias de Piaget e também de Lev Vygotsky, psicólogo pioneiro no conceito de que o desenvolvimento intelectual das crianças ocorre em função das interações sociais e condições de vida. Basicamente, o que Vergnaud propõe é que a formação do conhecimento acontece a partir de um conjunto de situações e conceitos (e não apenas um conceito), daí a ideia dos campos conceituais. 

Para resolver problemas de soma e subtração, por exemplo, o pesquisador percebeu que as crianças procuram a resposta utilizando procedimentos diversos, com base inclusive em vivências e aprendizados anteriores. O vídeo a seguir explora mais sua teoria:

“Embora a teoria de Vergnaud não seja explicitamente uma teoria didática, ela traz importantes implicações pelo fato de sinalizar para a necessidade, no que se refere ao professor, de ver a aprendizagem do seu aluno desde a perspectiva da complexidade, da diversidade, da evolução, e do repertório de esquemas do aprendiz, muitas vezes lenta e tortuosa, cheia de idas e vindas. Sob esta perspectiva, pode-se fundamentar novas abordagens para o ensino, proposições fundamentais ao currículo e a avaliação”, escreveram José Francisco Custódio e Mikael Frank Rezende Junior em artigo apresentado no IV Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências (ENPEC). 

No Brasil, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) para o ensino de matemática têm como base a Teoria dos Campos Conceituais de Vergnaud. Para quem se interessa em saber mais sobre a aplicabilidade do método na educação matemática, o livro “A criança, a matemática e a realidade”, escrito pelo psicólogo e publicado no Brasil pela editora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), é rico em exemplos.

Explorando a matemática

Vergnaud também foi fundador do Instituto de Pesquisa sobre o Ensino de Matemática (IREM), na França. Para ele, os professores devem trabalhar o raciocínio matemático por trás das operações e aproximar os alunos da disciplina. “Ensinar matemática é dar sentido à ciência, é propor situações concretas que tenham significado para os alunos”, declarou em entrevista à GZH em uma das suas últimas vindas ao Brasil.

O legado de Gérard Vergnaud é um verdadeiro aprendizado para todas as pessoas que se dedicam a ensinar matemática.