Multiplicando saberes: 8 ideias para o ensino remoto

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A discussão sobre o uso da tecnologia na educação é antiga. Mas até aqueles que ainda tinham dúvidas sobre a eficiência dessa combinação se renderam a ela quando o ensino remoto se tornou uma realidade durante a pandemia. No Brasil, foram meses de escolas fechadas e aulas reservadas ao espaço virtual. Com o novo contexto, adaptações foram necessárias e a busca por ideias para o ensino remoto, para garantir aulas produtivas, passou a fazer parte da rotina dos professores.

O programa Mentalidades Matemáticas vem se destacando nesse cenário. Com uma abordagem que prioriza recursos visuais para o ensino da matemática e preceitos como a importância do esforço e do acolhimento no aprendizado, o programa desenvolvido na Universidade de Stanford (EUA) e trazido para o Brasil pelo Instituto Sidarta vai muito bem tanto no ensino presencial, quanto no híbrido ou remoto.

Prova disso foram os depoimentos dos professores Annaly Schewtschik, Lucas Marçola e Priscila Andreani durante o webinar “Desafios para interação: diversificar recursos para promover aprendizagem”, que aconteceu na última terça-feira (24) no canal do Mentalidades Matemáticas no YouTube. Relatando suas próprias experiências, os educadores trouxeram ideias para o ensino remoto. Veja a seguir algumas delas que foram destaque no encontro.

8 ideias para o ensino remoto

Webinar sobre ideias para ensino remoto

Use a tecnologia para acolher

“A gente aprende quando se sente acolhido”, destacou a diretora do Instituto Sidarta Claudia Siqueira, que foi mediadora do webinar. Mesmo a distância, é possível utilizar recursos para acessar os alunos e mostrar que eles não estão sozinhos. Um exemplo é o WhatsApp. Com o aplicativo, é possível tirar dúvidas, fazendo uso de mensagens de texto, áudio ou imagens.

Lucas Marçola, que dá aulas de matemática para turmas do ensino fundamental II e do ensino médio em Registro (SP), trouxe no webinar uma das situações em que utilizou o WhatsApp para atender um aluno. O estudante escreveu para o professor pedindo ajuda para resolver um problema.

Professor tirando dúvida de aluno pelo WhatsApp

Entre trocas de mensagem e fotos, o professor deixou o aluno ir resolvendo do jeito dele, até que o próprio estudante teve a percepção de que a sugestão do educador poderia ajudá-lo a resolver a questão de maneira mais eficaz. No final, com o conteúdo aprendido, um muito obrigado que, segundo Lucas, “vale mais do que qualquer prêmio”.

“Esse aluno estava procurando conexão. O contexto era matemática, mas ele também não queria se sentir sozinho”, salientou Jack Dieckmann, pesquisador de Stanford e diretor de pesquisa do Youcubed, que também participou do webinar.

Não tenha pressa

Toda a troca de mensagens entre Lucas e seu aluno no WhatsApp levou cerca de quatro horas. “Nós não investiríamos quatro horas para explicar um exercício como esse se estivéssemos em sala de aula”, pontuou o professor. Ainda que os dois estivessem atendendo outras demandas durante a conversa, não colocar limite de tempo é um ponto a favor da aprendizagem. 

“Sabemos que a aprendizagem precisa de tempo. Muitas vezes na sala de aula fica corrido, mas isso causa ansiedade e não ajuda a aprender”, colocou Jack Dieckmann. 

A professora Priscila Andreani, do ensino fundamental II de São Paulo, reforçou que o ensino remoto traz esse aspecto positivo de o aluno poder fazer as atividades no tempo dele, sem os limites de duração das aulas presenciais. Ela já chegou a ficar quase um mês tirando dúvidas de uma aluna sobre uma mesma atividade. “Isso vale para o aluno entender que a atividade não acaba na primeira vez que ele tenta fazer”, colocou Priscila. “Ele tem a oportunidade de refazer e tentar de novo.” E são medidas assim que contribuem com a construção do raciocínio.

O programa Mentalidades Matemáticas tem como base pesquisas de neurociência sobre o processo do aprendizado. É daí que vem o preceito de que saber matemática não é necessariamente ser rápido. “Uma coisa que eu tenho levado bastante para a sala de aula depois de conhecer Mentalidades é que matemática não é velocidade, é profundidade, e cada um tem o seu tempo”, relatou Lucas.

Entenda como o aluno

“É fácil dizer ‘está certo’ ou ‘está errado’, mas é muito trabalhoso entender como o aluno está pensando. Isso demora mas faz toda a diferença, porque o aluno vê que o professor realmente está interessado e quer ajudar”, colocou Jack. 

A medida deve ser priorizada ao invés, por exemplo, de culpar os alunos. “O Lucas não reclamou: ‘ah, mas você não sabe isso?!’, porque muitas vezes os professores, talvez sem pensar, falam assim com os alunos, os culpam por não saber. Mas isso não é bom, porque eles estão querendo entender”, pontuou o pesquisador.

Atente-se a cada um

Os exemplos de Lucas e Priscila ilustram mais um ponto positivo da tecnologia no ensino remoto: a individualidade. A professora, que utiliza o Google Sala de Aula, destaca a contribuição da própria ferramenta nesse aspecto: “Ela permite que você olhe mais de perto para todos, porque você conversa individualmente com cada um quando vai escrever a devolutiva de uma atividade”, contou. “Isso fez com que eu fosse aprimorando os olhares.”

Nem tudo é nota

Priscila trabalha na rede municipal, então o processo avaliativo, como na maioria das escolas, pede o registro das notas em números. Mas mesmo com a obrigação do sistema, é possível avaliar de outras formas, até para os alunos não se limitarem aos números que recebem. “Dá para pensar nas avaliações de maneira formativa, em que os alunos reconheçam suas aprendizagens”, contou. “Eles precisam ter consciência de onde eles estão e onde a gente quer que eles cheguem.”

Entre as ideias para o ensino remoto, apresentação com sugestões de avaliação
Apresentação de Priscila durante o webinar

Nas aulas de Priscila, as notas aparecem só no final do processo, antes vem as devolutivas em forma de diálogo. E até pelo uso do Google Sala de Aula, a professora relatou que passou a ter mais conversas particulares com os alunos, perguntando sobre sua evolução e sentimentos nesse caminhar, incentivando também uma autoavaliação de cada estudante. “A nota é consequência de todo processo”, concluiu. “Isso me ajuda a enxergar melhor a aprendizagem dos alunos, e eles mesmos também.”

Recorra à melhor ferramenta

Entre as ideias para o ensino remoto, também vale ficar de olho pois nem todos os estudantes possuem estrutura em casa para acessar as ferramentas mais utilizadas. Lucas, por exemplo, fazia uso do Google Meet e do Jamboard, mas o aluno que lhe pediu ajuda não tinha acesso a elas. Foi aí que o WhatsApp entrou em cena, uma ferramenta acessível para ambos. 

Já para Annaly Schewtschik, que atua com formação de professores em Ponta Grossa (PR), foi a TV o recurso utilizado. Ela contou no webinar que trabalha com crianças da educação infantil e ensino fundamental I, então nem todas têm acesso à internet – mas à TV, sim! Suas aulas são produzidas e transmitidas pela TV educativa de Ponta Grossa e também ficam disponíveis no canal no YouTube da secretaria municipal de Educação

Aulas na TV, mais uma das ideias para o ensino remoto

Aposte no que chame a atenção

Priscila contou que utiliza mais o Google Sala de Aula no navegador, e que nesse formato as mensagens por escrito são o recurso predominante de interação. Mesmo assim, quando necessário, ela recorre a esboços visuais e envia os links para que os alunos acessem e entendam suas ideias.

Recursos visuais também são a aposta de Annaly. As aulas da professora, que são gravadas (sem nenhum tipo de interação ao vivo com os alunos), contam com materiais didáticos coloridos, símbolos, jogos e até personagens famosos. “O meu desafio foi: como montar uma aula assíncrona que motivasse, envolvesse e engajasse as crianças na aprendizagem da matemática?”, relatou no webinar. “Na TV você tem que atrair a cada minuto a atenção da criança para que ela não perca a ideia que você está querendo mostrar pra ela”, salientou. A saída foi então recorrer a recursos visuais para representar conceitos matemáticos, como:

Montagem de cubo
Annaly montou um grande cubo para ensinar metros cúbicos e volume

Mostre que é possível fazer diferente

Mais um recurso utilizado por Annaly é o Painel de soluções. Trata-se de um momento na aula na TV em que ela apresenta aos alunos maneiras diferentes de resolver um mesmo problema. “Assim eu ia trazendo outras ideias para criar na cabecinha deles que eles podem fazer diferente, que não existe só um jeito de fazer matemática e que eles podem, inclusive, criar o jeito deles.”

Lições que ficam

Com o retorno às aulas presenciais em muitos lugares, alguns dos aspectos discutidos no webinar podem se tornar menos recorrentes. Contudo, o saldo positivo da experiência com o ensino remoto deve servir de lição para o futuro. “Um ponto importante para as secretarias de Educação e coordenações de escolas é que a gente se mobilize para rever os tempos”, pontuou Claudia. 

O que fica de todas essas ideias para o ensino remoto é que seja na aula online ou no programa de TV, dá para ensinar matemática como algo lúdico e gostoso de aprender, além de manter o incentivo e acolhimento aos alunos e lembrar que todos podem aprender matemática. Clique aqui para conferir o webinar completo, que fez parte da série Multiplicando Saberes, do Instituto Sidarta com apoio do IMPA, e vem com a gente!

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