Grupo de pesquisa do IFSP estuda Mentalidades Matemáticas

O encanto de uma aluna de engenharia pela abordagem criada pela professora de Educação Matemática de Stanford, Jo Boaler, deu origem a um grupo de estudos sobre o Programa Mentalidades Matemáticas no Instituto Federal de São Paulo (IFSP). Depois de assistir a um vídeo de Boaler no Youcubed, Laíssa Figueiredo do Valle trocou a engenharia por um mestrado em Matemática, mas ficou intrigada ao não encontrar nada em português sobre o tema. Acabou se tornando uma divulgadora da abordagem e levou a nova forma de ver a disciplina para o Instituto Federal de São Paulo (IFSP). 

Hoje, Laíssa integra um grupo de pesquisa criado para estudar os conceitos de Boaler, divulgar a abordagem Mentalidades Matemáticas e contribuir para o ensino da disciplina no país. Ela não é um caso isolado. Este blog já contou a história de Keila Leitão, que também mudou seus rumos profissionais e relação dos alunos com a disciplina após assistir a um vídeo de Jo Boaler no Youcubed. 

Mentalidades Matemáticas no IFSP

O grupo no IFSP existe há um ano e sua história se entrelaça com a trajetória acadêmica de Laíssa. Formada em Engenharia Civil no CEFET-MG (Centro Federal de Educação Tecnológica em Minas Gerais), dava aulas de matemática durante a graduação. Em 2014, assistiu a um vídeo de uma palestra de Jo Boaler no Youcubed. O impacto foi imediato.

“Fiquei impressionada ao ver alguém dizer como é prejudicial o estereótipo de que a matemática é para poucos, os motivos por que tantos alunos a abandonam, como a crença que cada um tem sobre seu potencial afeta seu aprendizado… Tudo isso baseado em evidências científicas, como as pesquisas que mostram a capacidade de o cérebro se transformar com esforço.” 

Laíssa terminou engenharia com a certeza de que migraria para a matemática. Em 2017, com a oportunidade de fazer o mestrado pelo Profmat (Mestrado Profissional em Matemática em Rede Nacional) no IFSP, mudou-se para São Paulo. Na época, a maioria dos vídeos, textos e os livros de Jo Boaler só estavam disponíveis em inglês (o Instituto Sidarta traduziria os livros e a plataforma Youcubed em 2016). Ficou surpresa quando não encontrou nada sobre o tema em artigos científicos em português. Nenhum de seus professores do mestrado tinha ouvido falar em Jo Boaler. A comunidade acadêmica não estudava Boaler no Brasil. Tinha encontrado o tema de seu mestrado. Fazer uma divulgação científica do Mentalidades Matemáticas, abordando seus principais pressupostos. 

“A propaganda que a Laíssa fez da abordagem chamou minha atenção. Pela minha prática docente, encontrei no trabalho de Boaler algumas das ideias em que acreditava, como um outro modelo de avaliação”, lembra Henrique Martins de Carvalho, professor do IFSP, campus São Paulo, orientador de Laíssa. Logo depois, eles descobriram que outro aluno e seu orientador também haviam começado a estudar o tema. Já eram quatro pessoas e uma boa razão para montar um grupo de estudos.  

Hoje já são 12, entre estudantes e professores, a se reunir para debater a aprendizagem. O grupo cresceu porque Henrique e outro professor comentavam e aplicavam os conceitos com os alunos nas aulas de licenciatura em matemática. Todos se interessaram pela abordagem que valoriza o erros, o trabalho em grupo, a autonomia, a flexibilidade dos números. Os encontros eram quinzenais, mas com pandemia e a necessidade de reuniões on-line, tornaram-se semanais. 

“Cada um trouxe um interesse próprio. Teve gente que estudou a valorização dos erros, outros matemática visual. Muitos temas da minha pesquisa estudamos juntos”, afirma Laíssa, que concluiu o mestrado em 2019. 

A diferença entre avaliação somativa e formativa foi um dos temas. Segundo Henrique, mestre e doutor em Matemática pela UNESP, a somativa é o padrão mais comum, com provas, aprovações ou repetências e classificações por conceito ou número ao final de um ciclo de estudo. A formativa não é um ranqueamento, levanta as dificuldades com o alunos, no processo de aprendizagem, para que tomem consciência delas, reflitam e melhorem. 

O objetivo do grupo é entender o contexto e os fundamentos abordados por Jo Boaler.  Assim, buscaram os autores mais influentes em sua bibliografia, como Rachel Lotan, Cathy Willimans, Carol Dweck, Elizabeth Cohen, Paul Black e Ruth Butler. “Um dos grandes méritos de Boaler é amarrar esse conhecimento interdisciplinar e trazê-lo para a prática em sala de aula”, avalia Henrique.

Laíssa estuda e aplica o Mentalidades Matemáticas com crianças de 5 a 12 anos na escola Roda de Matemática. Ela se sente gratificada ao perceber como as mensagens transformam a relação da criança com a disciplina. Para ela as atividades que proporcionam autonomia, investigação e criatividade são essenciais.

Aluno protagonista

O papel do professor como mediador de conhecimento é um estímulo diário em sua prática. “Meu principal desafio é não roubar o momento de descoberta da criança. Segurar ansiedade para deixar o aluno pensar um pouco mais para encontrar a resposta. Quando ele é protagonista de sua aprendizagem é muito mais significativo”, diz. 

Laíssa participa também de um grupo de estudo na UNIRIO (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro), iniciado há poucos meses. “É muito interessante ver os questionamentos e as impressões de quem está começando a estudar as mentalidades matemáticas”

O grupo carioca estuda as relações da abordagem com a BNCC (Base Nacional Curricular Comum) e tenta responder a pergunta: como trazer esses conceitos e essa prática para o Brasil? 

Para quem ainda acha que a matemática é um dom, a decisão de Henrique pela disciplina se deve em parte ao acaso. “Minha escolha pela matemática foi secundária, só tinha uma certeza, queria ser professor. Na graduação, só podia fazer licenciatura à noite, e as disciplinas disponíveis eram matemática e física. Escolhi a matemática. Sempre gostei, e como a própria Jo Boaler fala, nunca fui rápido para fazer contas, sempre preferi a parte conceitual.”

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1 Comentário

  • Maravilhosa e transformadora a história da Larissa!! Que ela continue a inspirar ainda mais crianças e professores!

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