“Não importa a escola ou onde você nasceu, você é capaz de aprender matemática”, ressalta Jack Dieckmann

O professor Jack Dieckmann, PhD e diretor de pesquisa do Centro de Estudos Youcubed, da Universidade de Stanford (EUA), está de férias no Brasil e veio visitar o Sidarta. Em maio de 2018, ele esteve em São Paulo para o Seminário Mentalidades Matemáticas: todos podem aprender em altos níveis. Naquele momento, ele concedeu uma entrevista exclusiva ao nosso blog. Confira a seguir.

Entrevista com Jack Dieckmann

Blog – Defina Mentalidades Matemáticas.

Jack Dieckmann – Trata-se de uma abordagem de ensino e aprendizagem de matemática. Primeiro, pensamos em como se dá a formação da mentalidade da criança com base nas pesquisas sobre o desenvolvimento do cérebro e suas formas de aprendizagem. Por fim, trabalhamos com o que descobrimos em nossas pesquisas sobre as melhores práticas. Essas abordagens juntas formam o conceito de Mentalidades Matemáticas, que foi desenvolvido pela professora Jo Boaler, na Universidade de Stanford. Jo é uma especialista em educação que há muito tempo vem pesquisando os avanços na aprendizagem de matemática e mudando as expectativas dos professores em relação aos alunos, permitindo padrões mais elevados de entendimento e aprendizagem. Todo esse trabalho é feito em um Centro de Estudos da Escola de Educação de Stanford chamado Youcubed.

Blog – Conte mais sobre o Youcubed.

Jack – Nossa missão no Youcubed é levar essa abordagem e nossas descobertas para o maior número de escolas no mundo. Fazemos isso de diversas formas. Algumas delas são cursos e treinamentos online. O curso para estudantes é gratuito e já está traduzido para muitos idiomas. Para os professores, há treinamentos diferentes com base em nossas pesquisas, todos focados nos métodos de ensino. Temos também um material didático para 3o, 4o e 5o anos e estamos ampliando para outras séries.

Nosso site tem milhares de acessos e visitas de tutores em busca de entender e aprender uma forma de ensinar. Temos vídeos, resumos das pesquisas, exemplos de práticas e também uma pesquisa famosa chamada “Fluência Sem Medo”, que é um resumo de tudo o que sabemos sobre as ansiedades e os traumas que cercam o aprendizado de matemática, em especial as provas. Com base nisso, muitos professores tiveram recursos para propor diferentes métodos de avaliação, sem a tensão que as provas no formato mais tradicional causam nos alunos e em sua aprendizagem. Vimos escolas diminuindo o número de provas aplicadas e aumentando o tempo e as condições para as crianças trabalharem nelas. Esse é um exemplo prático de como as pesquisas de Jo Boaler e do Youcubed estão mudando a forma de ensino no dia a dia.

Blog – Sobre as pesquisas feitas pelo Youcubed, é possível dar um exemplo de uma que teve impacto social relevante?

Jack – Posso citar o curso gratuito para alunos chamado “Como aprender matemática”. Ele é online e composto por seis módulos, em formato de vídeo, com a Jo Boaler falando diretamente com as crianças e os adolescentes, contando e explicando sobre como o cérebro deles se desenvolve, o que é inteligência e ensinando como tirar melhor proveito de tudo isso. São mensagens muito poderosas. O jeito como são absorvidas pelos estudantes muda a forma como eles encaram o aprendizado.

Temos esse método comprovado por meio de uma pesquisa muito séria e já reconhecida pelo Ministério da Educação, feita com estudantes acompanhados pelo mesmo professor – uma parte deles fez o curso e a outra não. Usamos diferentes formas de aferir o impacto que o curso poderia ter causado, desde perguntando para eles como se sentem sobre as aulas de matemática, até a observação do professor, o rendimento em sala, o comportamento durante as aulas e, claro, o resultado da prova. Em todas essas medidas de aferição, notamos melhora significativa entre os que fizeram o curso e os que não fizeram.

Eles passaram a ver a matemática de forma mais criativa e a ter mais interesse em aprender, além de persistirem mais tempo na resolução de problemas e atividades e mostrarem menos ansiedade em relação às provas. Foi muito claro o aumento do engajamento durante as aulas, fazendo mais perguntas. Além disso, comparamos o resultado das provas em si e eles tiveram notas maiores. Isso prova como é possível aumentar a simpatia pela matemática deixando os alunos mais confiantes e interessados. Claro que é um processo, mas mostra como até uma pequena intervenção pode causar grandes mudanças. O empoderamento não pode ser subestimado.

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Imagem: Freepik

Ainda estamos começando a enxergar novas e diferentes formas de avaliar os alunos. As provas são quase que um mercado, uma indústria. Apesar de eficientes em muitos casos, nem sempre é a melhor forma de medir e auxiliar o aprendizado. É muito mais fácil desenvolver uma prova de múltipla escolha do que uma com questões abertas, por exemplo. A prova aberta é mais cara também, exige mais tempo e dedicação do professor e da escola. Mas, ao mesmo tempo, ela dá uma visão muito melhor do potencial de cada aluno e também de suas deficiências. Um exemplo: uma das coisas mais importantes em matemática é aprender a formar conjunções lógicas, ou seja, reconhecer um padrão e aplicá-lo em diferentes situações. É um princípio fundamental impossível de ser medido ou avaliado em testes de múltipla escolha. Ou seja, a maioria das provas dá uma visão distorcida para o professor do que o aluno é ou não capaz, não são apenas números e cálculos. Então, acredito que, nos Estados Unidos, essa é uma questão crítica, más formas de avaliação estão sugando demais alunos e professores. Estamos começando a mudar isso.

Blog – É possível citar outro desafio?

Jack – Outro grande desafio é a visão distorcida de muitos steakeholders, e isso inclui pais, professores e alunos, de que a matemática é uma coisa difícil, complicada, que algumas pessoas sabem e outras têm dificuldade. Há até um estigma de que alguns simplesmente não têm o dom para matemática e isso não é verdade. Todo mundo pode aprender. Até os mais importantes e reconhecidos matemáticos do mundo já nos disseram que têm como característica o pensamento mais lento e cauteloso. Então, de onde vem aquela ideia falsa de que para ser bom em matemática é preciso ser rápido, pensar rápido, responder rápido? Você pode pensar rápido ou devagar. Não é isso o que importa, mas a forma como desenvolve seu raciocínio. Isso tudo são mitos que cercam a matemática. As pesquisas e a ciência têm nos mostrado que a coisa não funciona assim, mas esse é um processo que demora um pouco para ser mudado. Seria arrogante da minha parte dizer que esses problemas são os mesmos que acontecem no Brasil. Estou conhecendo o país agora, mas já soube que muitos desses mitos e fantasmas em torno da matemática existem aqui também.

Blog – Como os professores podem se beneficiar dos materiais publicados no Brasil, como os livros e o site?

Jack – Professores não são problemas. Não há nada de errado com eles. Nós, realmente, vemos os professores como parceiros e aliados. Então, a grande mudança tem de começar com a valorização e o respeito aos professores, inclusive ainda como alunos, pois todos somos, e sempre temos o que aprender. Não importa o quanto de conhecimento já se tenha, não é isso que está em questão. O respeito a eles como principais interessados no que é melhor para o aluno deve ser sempre ressaltado. Dito isso, o que descobrimos com nossas pesquisas é que, para fazer mudanças poderosas, precisamos dar aos professores mais ferramentas e instrumentos para que possam fazer melhor seu trabalho. Podemos, inclusive, mudar para melhorar a visão e a forma como eles também se relacionam com a matemática.

Muitos tutores de ensino fundamental também têm medo da matemática e preferem ensinar arte, línguas, história e enfatizando menos a matemática com as crianças, o que cria uma defasagem desde cedo no contato com a disciplina e sua lógica no desenvolvimento cerebral. Entrevistamos muitos professores que assumiram essa deficiência e até choraram ao abordar a questão.

A matemática é um tabu não só para os alunos, mas também para muitos professores. Ela cria ansiedade e insegurança. Eles são traumatizados também pela sua formação, principalmente as mulheres, que durante muitas gerações foram criadas ouvindo que matemática e raciocínio lógico é coisa masculina e que homens têm mais facilidade para essas matérias. Isso é uma grande mentira. É preciso mudar a relação dos professores com a área para poder mudar os alunos.

Blog – Na sua experiência, quais dificuldades os professores costumam encontrar quando aplicam as Mentalidades Matemáticas? Que mensagem você daria para os professores brasileiros que querem trabalhar dessa maneira?

Jack – O que tenho notado é que os professores ficam muito empolgados com o método e mergulham de cabeça tentando aplicar todas as mudanças de uma vez. Às vezes, isso funciona. Às vezes, não. Daí eles ficam desanimados e interpretam como um problema do método. A inspiração, a empolgação e as intenções são positivas, mas é preciso pensar como num quebra-cabeça: qual peça devo colocar montar primeiro? Ou seja, em vez de aplicar todas as sugestões do método de uma vez, avaliar caso a caso, turma a turma e formatar sua estratégia. Aí, sim, depois de criar confiança em si, nas crianças e na capacidade de aprendizado de todos, os resultados vão aparecer. Mudar um hábito é um processo lento. É preciso ter paciência. Os professores são seres humanos e, portanto, também estão sujeitos a errar, e tudo bem. Faz parte. Eles também estão aprendendo algo novo e leva tempo, mas não devem desanimar e assumir que são maus professores porque erraram. Faz parte do processo. Todo mundo erra quando está aprendendo e tudo bem.

Blog – Comente a relevância da matemática no ensino para equidade.

Jack – Infelizmente, a matemática tem um histórico de estigma de ser elitista. Apenas algumas pessoas podem ou são capazes de aprender. Nas universidades, especialmente, esse tipo de preconceito é muito reforçado. E tem também um péssimo histórico de excluir minorias, como mulheres, negros e qualquer um que não esteja no padrão. Mas é isso que visamos mudar. Todos podem atingir excelência em matemática, independentemente de sexo, raça ou condição social. A mensagem de equidade está em todo nosso trabalho no Youcubed e permeia tudo o que fazemos.

Blog – Como foi o seu encontro com professores do Sidarta para trazer o Mentalidades Matemáticas para o Brasil?

Jack – Não estamos numa posição de apenas vir aqui e ensinar, mas também de aprender e compreender muita coisa. Como diferentes contextos fazem sentido para nossas ideias, nossas teorias? Será que o que funciona nos Estados Unidos funcionará aqui? Vejo essa relação como uma via de mão dupla, onde também tenho muito o que aprender. Venho para o Brasil como um embaixador do Mentalidades Matemáticas, mas também como uma pessoa muito curiosa para entender os desafios e possibilidades deste país.

Visitei uma escola pública e fiquei muito emocionado com o trabalho que os professores fazem lá, que vai além de apenas ensinar. Eles abraçam toda a comunidade e envolvem crianças que vivem em situações adversas. Graças a essas crianças, apesar de todas as dificuldades, ainda vão para a escola, têm os olhos brilhando para aprender. Isso me dá muita esperança. Vejo essa escola que está num contexto muito diferente do meu, mas também tem a missão de equidade em foco. Tenho ainda mais certeza de que não importa a escola ou onde você nasceu, você é capaz de aprender matemática. Todos se beneficiam com nosso trabalho, mas as minorias são as que colhem mais frutos.

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