Neurociência e matemática criativa podem transformar a educação inclusiva

04 de setembro

Artigo de Jo Boaler e Tanya LaMar defende fim dos rótulos e celebração das ‘diferenças’ na aprendizagem 

Na infância, o australiano Nicholas Letchford foi diagnosticado com deficiência de aprendizado. Os professores afirmaram que ele era “a pior criança que haviam visto em 20 anos”. Pode-se imaginar uma trajetória escolar repleta de obstáculos. Com apoio da mãe, Nicholas persistiu até concluir o doutorado em matemática aplicada. A história de superação é uma exceção em um sistema educacional que oferece rótulos e baixas expectativas a quem tem um transtorno de aprendizagem identificado. Mas pesquisas em neurociência e um ensino multidimensional de matemática podem contribuir para a educação inclusiva, afirmam a professora da Universidade Stanford Jo Boaler e a doutoranda em educação pela mesma instituição, Tanya LaMar.

No artigo, “Valorizando a diferença e o crescimento: uma perspectiva do Youcubed sobre a Educação Inclusiva”, as pesquisadoras aplicam parte dos conceitos das Mentalidades Matemáticas para dialogar com os profissionais da área, como a valorização da criatividade, da diversidade de pensamentos, do raciocínio profundo, e rechaçam a ideia de déficit e o ensino baseado na memorização. Jo Boaler defende que, quando a aprendizagem e as expectativas são ampliadas, “um número muito maior de alunos alcança um bom desempenho e alguns deles, inclusive, se livram dos rótulos que os vinculam aos transtornos de aprendizado”.

Estudos em neurociência voltados à educação inclusiva tratam de entender o funcionamento do cérebro e também como modificá-lo através de intervenções direcionadas. Esse foi o foco do trabalho de Teresa Luculano, na Faculdade de Medicina na Universidade de Stanford. A cientista pesquisou dois grupos, o primeiro de alunos com transtornos de aprendizagem em matemática e o segundo de estudantes com desempenho dentro da média. Ressonâncias magnéticas apontaram que os alunos portadores de distúrbios, quando faziam exercícios matemáticos, tinham um número maior de regiões de seu cérebro ativadas.

“No entanto, não queremos que todas as áreas do cérebro acendam quando trabalhamos com matemática, mas algumas áreas específicas”, explica Boaler. Assim, todos os alunos frequentaram aulas particulares diárias de 40 a 50 minutos durante 8 semanas, pautadas no fortalecimento da compreensão sobre as relações entre as operações. No final desse período, os dois grupos de estudantes obtiveram não só o mesmo desempenho, mas as mesmas áreas ativadas do cérebro. 

Esses resultados nos lembram que alunos vivenciam em seus anos escolares uma intensa jornada de crescimento. A cultura de separação por rótulos, que determina alunos “inteligentes” e alunos com “necessidades especiais” não se justifica ao reconhecermos que estudantes e professores participam de um processo contínuo de transformação e crescimento cerebral. 

A vida de Barbara Arrowsmith-Young combina intervenção direcionada e uma história de superação. Na infância foi diagnosticada com graves deficiências de aprendizagem. Os professores a consideraram brilhante em certas disciplinas e chegam a apontar que seria “retardada” (termo usado na época) em outras. Na universidade, começou a estudar desenvolvimento infantil e neuroplasticidade, e descobriu que certas atividades poderiam produzir crescimento cerebral. E fez uma experiência consigo mesma, escrevendo centenas de cartas com faces de relógios de ponteiro, o que a fez ler as horas com muita rapidez. “Com essa atividade direcionada, começou a ver melhorias em sua compreensão simbólica e, pela primeira vez, começou a compreender gramática, matemática e lógica”, afirma o artigo.

Bárbara se transformou em uma pioneira em treinamento cognitivo e possui escolas com ensino especializadas a alunos com dificuldades de aprendizado em Toronto, Canadá. Jo Boaler relata que, durante uma visita a uma dessas escolas, ouviu muitas crianças falarem sobre a “dissipação de um nevoeiro” depois que começaram a fazer suas tarefas cognitivas. Pesquisadores afirmam que o programa de Barbara Arrowsmith gera melhorias na conectividade cerebral e nas reorganizações da rede. Quer conhecer mais seu trabalho? No Youcubed há um um webinar gratuito sobre sua abordagem.

Matemática criativa, aberta e multidimensional

O ensino de matemática deve incentivar a criatividade e a interação de ideias para que mais alunos tenham sucesso em avaliações. Todo estudante é um ser matemático capaz de fazer conjecturas e conexões, comunicar-se, argumentar, desenhar. Pesquisas comprovam que uma abordagem mais aberta gera desempenhos mais altos e equitativos. Jo Boaler recorda que, no Curso de Férias do Youcubed, todos os participantes afirmaram não “levar jeito para a matemática”. Após 18 aulas, os alunos alcançaram uma melhora em testes equivalente a 2,7 anos de raciocínio matemático.

Parte desses alunos foi identificada como portadora de distúrbios de aprendizagem e tinha notas baixas na disciplina. Os gestores distritais de educação ficaram emocionados ao visitar o curso e assistir a esses estudantes interagirem, resolverem problemas complexos, argumentarem e explicarem suas conjecturas à classe. Durante as aulas, não conseguiam distinguir quem integrava o ensino inclusivo.

Essa abordagem aberta e criativa é possível com a flexibilização dos números e o desenvolvimento do senso numérico. Os pesquisadores Eddie Gray e David Tall descobriram que “a diferença entre os alunos de alto e baixo desempenho não estava num maior nível de conhecimento daqueles com melhores notas, mas na utilização da flexibilidade dos números, o que não se observou entre aqueles com resultados mais baixos”.  Alunos com boas notas praticavam o senso numérico. Essa abordagem mais conceitual poderia ser oferecida aos alunos da educação inclusiva para melhorar suas relações com a disciplina. 

Com liberdade e confiança para serem criativos e trazerem suas ideias, aqueles diagnosticados com dificuldades de aprendizagem constroem estratégias matemáticas sofisticadas de pensamento. Diferentes estudos mostram que alunos que pensam com autonomia têm menores dificuldades de aprendizado. “Muitos professores não sabem como ensinar de maneira multidimensional, e é por isso que o Youcubed oferece formação continuada, cursos on-line e uma gama de outros recursos para ajudá-los a conhecer e ensinar matemática de maneira diferente. Estes cursos são concebidos para ajudar professores de matemática e educadores especiais”, convida Boaler.

As histórias de Nicholas Letchford e Barbara Arrowsmith-Young diferenciam-se dos rótulos da educação inclusiva e se explicam por condições e causas próprias, como o incentivo de educadores e pais e uma vida e aprendizado orientados pela mentalidade de crescimento – em que a pessoa acredita que com esforço e persistência é capaz de desenvolver-se. Porém, como disseminar essa mentalidade se o sistema educacional reitera que somente alguns alunos podem ter um bom desempenho? 

O artigo termina com uma outra pergunta, feita por Ray McDermott: como o aprendizado mudaria para os alunos se não tivéssemos rótulos em nosso sistema escolar? Em seu trabalho com educadores especiais, Boaler adotou o termo “diferenças de aprendizagem” ao invés de “deficiências de aprendizagem”, porque os alunos são diferentes e isso deve a ser celebrado. E a professora relata sua experiência com essa abordagem de ensino e por que acredita na sua contribuição para a educação, como mãe de uma criança portadora de dislexia e dificuldades de processamento auditivo.

“Todas as orientações relacionadas ao ensino que ela deveria receber e que realmente a ajudariam – ver o conteúdo e as ideias de maneiras diferentes, envolver-se com várias mídias e métodos, evitar fatos desconectados ou encontrar maneiras de conectá-los – pareciam um ensino bom para todos os alunos. Talvez nem devêssemos chamá-lo de ‘educação inclusiva’. Quem sabe exista um nome melhor: educação de qualidade”, conclui Jo Boaler.