Professoras destacam suas experiências com Mentalidades Matemáticas

Sonho que se sonha só é só um sonho, mas sonho que se sonha junto é realidade. Foi usando os versos de Raul Seixas que a professora de matemática Patrícia Barreto descreveu sua experiência aplicando Mentalidades Matemáticas com seus alunos, em Salvador (BA). Junto com a educadora Laís Pereira e o diretor de pesquisa do Youcubed Jack Dieckmann, Patrícia participou do webinar “Tá com medo? Vai com medo mesmo!”, que marcou o início da segunda temporada da série “Multiplicando saberes”, realizada pelo Instituto Sidarta em parceria do Itaú Social e apoio do IMPA.

Sob a mediação da diretora do Instituto, Claudia Siqueira, o encontro que ocorreu na última quinta-feira (22) no canal do Mentalidades Matemáticas no YouTube reuniu educadores de diferentes regiões do Brasil para compartilhar seus relatos com a aplicação da abordagem MM em sala de aula. 

Afinal de contas, os preceitos de fazer das aulas de matemática um espaço mais aberto, criativo e visual e variar os recursos de ensino, como o Mentalidades Matemáticas defende, parecem ser ótimas ideias… Mas como aplicá-las na prática em meio a métodos tradicionais? Bom, os depoimentos das professoras convidadas apresentaram algumas possibilidades e alimentaram a coragem de quem busca fazer o mesmo! Confira a seguir alguns destaques do encontro.

Conexão de ideias

Professora do ensino fundamental II, Patrícia contou durante o webinar que conheceu o Mentalidades Matemáticas justamente ao buscar recursos inovadores para engajar seus alunos. A leitura dos livros sobre Mentalidades Matemáticas e o trabalho de Jo Boaler, professora da Universidade de Stanford e criadora da abordagem, veio de encontro com os seus sentimentos.

“Nesse primeiro contato, uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a ideia que a Jo traz sobre ideias centrais e a conexão entre ideias. Sempre me incomodou dividir os assuntos em caixinhas, mas a gente acaba fazendo isso”, disse. Com esse preceito em mente, a professora decidiu criar o seu próprio mapa mental, sobre divisão, e levou aos seus alunos. “Resolvi arriscar.”

Mapa mental de Patrícia Barreto apresentado durante o webinar | Arquivo de Patrícia Barreto

“Busquei questões que eu pudesse levar para a sala e discutir com os alunos, e que essas ideias que eu tinha colocado no meu mapa começassem a perpassar nas discussões”, contou. “No primeiro instante foi fantástico, eu consegui que os alunos começassem a desenvolver um olhar diferente.”

Mas para aprimorar esse olhar foi necessário voltar um pouquinho. “Precisava existir um trabalho de desconstrução e construção de um novo pensamento, de uma nova forma de se pensar matemática”, relatou Patrícia.

A professora recorreu, então, ao Youcubed. A plataforma, que disponibiliza recursos gratuitos para professores, pais e alunos, conta com pôsteres para explicar os preceitos do Mentalidades Matemáticas e engajar aqueles que atuam com a abordagem. Hoje, a sala de aula de Patrícia tem na parede o pôster abaixo:

Os princípios de MM viraram o acordo das aulas de matemática de Patrícia | Reprodução Youcubed

“Apresentei para os alunos e perguntei o que eles achavam daquilo, o que sentiam quando ouviam cada frase, e daí eles começaram a falar, colocaram as ideias deles”, contou. “Sempre que eu percebia que eles tinham medo de falar ou estavam se sentindo inseguros, eu lembrava do acordo”, explicou Patrícia, ressaltando a importância desse cuidado para  começar a construir um novo olhar por parte dos seus alunos, já que eles trazem uma bagagem de experiências anteriores também.

A importância do erro

Mais uma novidade que Patrícia passou a implementar em sala de aula foi a discussão do erro. Quando os alunos erravam, ela os convidava a pensar por que aquele erro aconteceu. E daí as hipóteses surgiam, levantadas pelos próprios alunos. “Às vezes eu levava duas aulas discutindo um erro, mas o aprendizado era real”, colocou a professora.

“A primeira coisa que eu fiz quando entrei em contato com o Mentalidades Matemáticas não foi mudar o que eu já tinha, foi mudar a minha postura diante do que eu fazia. Eu não deixei de usar meus livros didáticos, não passei a usar as atividades do Youcubed logo porque não eram simples para mim também, eu também estava nesse processo de transição. Mas eu comecei a fazer pequenas mudanças, passei a falar menos e ouvir mais, a trabalhar nos alunos a argumentação, a discutir o erro.”

E na pandemia?

Para continuar aplicando Mentalidades Matemáticas de maneira remota, Patrícia implementou com seus alunos ideias levantadas nos webinários do “Multiplicando Saberes” que ocorreram em 2020. Para manter o incentivo à participação, por exemplo, ela passou a pedir para que os alunos abrissem os microfones, para que quem se sentisse à vontade abrisse a câmera, e estimulava a argumentação, colocava situações e pedia que os alunos dissessem o que estavam pensando. A professora também buscou aplicativos que pudessem servir como lousa, para que pudesse expor suas ideias de maneira visual.

O valor do grupo

Durante o webinar, a professora Laís Pereira, de Gravataí (RS), destacou mais um aspecto marcante do Mentalidades Matemáticas: a importância do trabalho em grupo. “Eu gosto de ver o aluno fazendo uma atividade como eu gosto de fazer, interagindo”, colocou. Inclusive o fato de se colocar no lugar do aluno antes de propor uma nova atividade é um exercício que Laís pratica e recomenda, até para que o professor consiga definir melhor os recursos que irá utilizar. “Quando o professor se coloca como aprendiz faz toda a diferença”, reforçou Claudia Siqueira.

“Eu sempre gostei do trabalho dos alunos em grupo, porque às vezes ele não entende o professor falando, mas entende o colega falando. Também tem as trocas, um está conseguindo resolver e ajuda o outro e de repente a questão se desenvolve.”

Laís também destacou como os ensinamentos do Mentalidades Matemáticas ajudam a dividir os papéis dos alunos em grupo. “Tem o facilitador, que garante que o restante do grupo entendeu, o monitor de recursos que vai monitorar o tempo, os recursos, o repórter, que vai apresentar, o harmonizador, que vai garantir que todos vão participar.”

Sem pressa

Outra dica compartilhada por Laís é: valorize o processo de todos, e não a velocidade do aluno. “Muitas vezes vem um aluno com a resposta e acabou, já está respondido, vamos para a próxima. E não, tem outros que ainda estão no processo de se organizar”, lembrou a professora.

A própria organização também pode ser estimulada. “Gosto de atividades de contagem, onde o aluno vai ter que se organizar para conseguir se desenvolver”, relatou. Ao dar liberdade para que o próprio aluno se organize, acaba gerando um incentivo.

Dificuldades? Tem também!

Além de divulgar as atividades bem-sucedidas, os professores que aplicam Mentalidades Matemáticas gostam de dividir com os colegas práticas que deram errado, para que gerem um aprendizado. Laís, por exemplo, relatou durante o encontro que nem sempre as inovações fizeram parte das suas aulas – ela arriscava, mas logo acabava voltando para os métodos tradicionais. 

“Se alguma atividade que você fez não deu certo é porque tem coisas em potencial para melhorar”, relatou. Nas suas experiências, por exemplo, muitas vezes a questão estava na turma. Ao testar uma mesma atividade em turmas diferentes, ela via reações diferentes.

Mas é evidente que o desânimo pode surgir quando alguma atividade não tem o resultado esperado. Afinal de contas, como colocou Jack Dieckmann durante o webinar, o trabalho do professor também é emocional. “Quando nossos alunos conseguem entender, nós ficamos alegres, mas quando não conseguem, ficamos tristes, porque nos preocupamos, queremos que eles tenham sucesso, aprendam o que deveriam aprender”, pontuou o profissional de Stanford. “Quando estamos construindo uma trilha, é difícil ver onde vamos chegar, mas é preciso ter fé: nos alunos e de que você irá conseguir”, incentivou Jack.

Resultados

Uma dúvida muito comum dos professores que desejam aplicar Mentalidades Matemáticas em sala de aula é como mostrar os resultados dos seus alunos. As primeiras mudanças após a adoção da abordagem são vistas pelos próprios professores, como a percepção de uma nova postura dos alunos, mais participativa e engajada. Mas como atestar essas melhorias em avaliações e relatórios?

Um recurso utilizado por Laís é anotar nos relatórios as discussões feitas pelos alunos durante uma atividade. Já Patrícia passou a mudar as questões que trazia nas avaliações. No exemplo abaixo, compartilhado no webinar, ela trouxe um problema já resolvido, utilizou recursos visuais e pediu a argumentação dos alunos, levando a matemática para além dos números e contas:

“Estou no caminho certo, meus alunos não estão mais presos à conta certa. Eles passam a analisar o problema e entender de fato os conceitos matemáticos, porque é isso que a matemática é: são ideias, conceitos, e não métodos.”

Assista agora

Veja na íntegra os depoimentos das professoras e as dúvidas respondidas dos participantes:

MM para todos

Patrícia e Laís fazem parte das células de Mentalidades Matemáticas, criadas com o intuito de oferecer suporte e troca de experiências entre professores que trabalham com a abordagem. Para saber mais sobre a Rede MM e como participar, clique aqui.

“Vamos entrar nesse movimento, ele é muito bom. Essas trocas, essas conversas que a gente faz abrange muitas ideias de tendências que a gente já estudou e estuda e por algum motivo a gente fica travado em usar, e o Mentalidades junta tudo isso, traz a questão da neurociência e isso nos fortalece muito como professores”, convida Laís.

“Multiplicando saberes” conta com parceria do Itaú Social e apoio do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA). O próximo encontro da segunda temporada da série acontece no dia 17 de junho e vai trazer estudantes que participaram do Curso de Férias do Mentalidades Matemáticas junto com os seus professores. Porque vamos combinar, também é preciso ouvir aqueles que são impactados pelas nossas escolhas, não é mesmo? Até lá! 

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