Ansiedade: a matemática não é uma corrida

10 de novembro

Valorizar mais o processo de raciocínio do que a rapidez do resultado ajuda a tirar a carga psicológica da disciplina, dizem professores

A noção fantasiosa de que um bom estudante de matemática é aquele que sabe responder de bate-pronto o resultado de uma conta é um dos maiores mitos que causam a ansiedade com a disciplina. E o pior: essa imagem da calculadora ambulante não tem nada a ver com o que de fato faz um matemático. 

“Um matemático às vezes demora dias, meses ou anos até chegar numa resolução com que ele esteja de acordo”, diz Maitê Salinas, formadora do Mentalidades Matemáticas e licenciada em Matemática pelo Instituto de Matemática e Estatística da USP. Esse ritmo mais calmo, com este olhar equitativo, se aplicado à sala de aula, pode acolher um número crescente de estudantes e aprofundar seu aprendizado, como já foi comprovado pela abordagem Mentalidades Matemáticas. 

Todos conhecem, na própria pele ou na de pessoas próximas, a ansiedade com a disciplina. Ela envolve o reconhecimento de que se precisa aprender mais (“é muito difícil…”), se disfarça de elogio aos outros (“é que eu não nasci para a matemática…”) e pode bater no próprio corpo, com taquicardia, suor frio, dor de cabeça, sensação de opressão no peito, dificuldade respiratória e gastrointestinal e turvação da vista. Ao final, essa sensação faz com que a pessoa fuja de situações e carreiras que demandem matemática.

“A ansiedade matemática é muito mais um problema social, cultural, pedagógico, do que um problema individual por si só; não é uma doença”, diz João dos Santos Carmo, professor de psicologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e líder do Grupo de Pesquisa Análise do Comportamento e Ensino-Aprendizagem da Matemática (ACEAM). Quando a pessoa aceita o rótulo de que não foi feita para a matemática, segundo ele, acaba desistindo. Esses indivíduos procuram profissões onde julgam não precisar mais da matemática – e muitas vezes são surpreendidos ao notar que na verdade precisavam. “Como ferramenta social, a matemática sempre estará presente”, diz.

Ao longo de sua carreira, Carmo fez ou analisou diversos estudos sobre como funciona a reversão da ansiedade matemática. Nos Estados Unidos, diz, as pesquisas consistentemente mostram que uma fração significativa das pessoas sofre dessa ansiedade; no Brasil, ainda não há estudos abrangentes a respeito, mas também acontece.

Segundo o pesquisador, o que chamamos de ansiedade matemática nem sempre é especificamente ligado à disciplina. Pode mascarar outros problemas: uma aversão mais geral a testes, provas e exames; o desalento após tentar várias vezes aprender um conteúdo; ou até problemas advindos do contexto pessoal do aluno, como dificuldades familiares e falta de orientação com os hábitos de estudo.

A principal origem da ansiedade, segundo os estudos, está em vivências prévias com a disciplina. Pode vir de professores que expõem os alunos que precisam de auxílio ou tratam inadequadamente os erros – que fazem parte do caminho do aprendizado. Também não ajuda muito a imagem popular da matemática como “bicho de sete cabeças” e dos melhores alunos como “gênios”. Carmo diz que esses fatores gradualmente se acumulam para gerar aversão pessoal à matemática. 

Existem estratégias que funcionam bem para evitar a ansiedade em sala de aula e ajudar que todos aprendam, muitas delas já sistematizadas na abordagem Mentalidades Matemáticas e aplicadas com bons resultados em escolas do Brasil e do exterior. 

Segundo Maitê, professores que valorizam sempre os alunos que levantam a mão mais rápido acabam por interromper o raciocínio dos outros alunos no meio do caminho. Isso causa ansiedade e desencoraja sua busca por uma resposta. Cabe aos professores estimular a calma e a segurança deles, para que, mesmo que errem, possam tentar mais vezes para aprender. Mais ainda: a própria estratégia tentada pode abrir caminhos para os outros colegas. 

“Quando não valorizamos o raciocínio, quando não temos o cuidado de analisar as estratégias que os alunos estão pensando nas avaliações e na sala de aula, estamos cristalizando a ansiedade deles”, diz Maitê. Segundo ela, é necessário transformar os erros em focos de investigação na aula, por exemplo, por meio de discussões que explorem o motivo daquele erro. Como nunca existe uma única maneira de fazer o raciocínio necessário, o erro de hoje pode abrir a porta do acerto de amanhã. 

Outra estratégia para estimular o raciocínio em sala de aula, diz ela, é abrir espaço para que os estudantes pensem juntos. Maitê já testemunhou alunos rotulados como “bons em matemática” elogiarem o raciocínio de colegas rotulados como “não tão bons”, que passaram a se sentir mais confiantes e melhoraram seu desempenho. Para isso, é importante garantir um ambiente onde os alunos se sintam seguros em contribuir com a aula, compartilhar seus pensamentos, errar e tentar de novo, num esforço constante. 

“Um jogador de futebol só chega no dia do jogo? Uma bailarina, só no dia da apresentação?”, compara Maitê. “Não, aquele treina, ela ensaia… é assim para qualquer coisa em que a gente queira se destacar. A matemática não é diferente”. 


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