‘Ciência de dados deve ser ensinada desde os anos iniciais’, diz Maitê Salinas

Webinar do Instituto Sidarta debateu como levar conceitos para a sala de aula

A internet deixa ainda mais evidente que a matemática está em toda parte. Se conhecer Ciência de Dados pode nos ajudar a ser cidadãos mais conscientes, seu ensino deve começar nos primeiros anos da escola, com noções de probabilidade. “A Ciência de Dados pode quebrar essa barreira dos alunos com a matemática porque é o mundo que estão vivendo”, afirmou o engenheiro da computação Hallison Paz no webinar “Ciência de dados: o futuro é agora!”, que aconteceu na última quarta-feira (29), no Facebook do Mentalidades Matemáticas. Também participaram do debate André Carvalho, professor e vice-diretor do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP (ICMC-USP) e Maitê Salinas, professora do Colégio Sidarta e formadora do Mentalidades Matemáticas. O encontro faz parte da série de webinários “E a matemática com isso?”, iniciativa do Instituto Sidarta em parceria com o Itaú Social e apoio do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA).

A mediação foi do jornalista Marcelo Soares, diretor da Lagom Data, consultoria de inteligência de dados. Ele abriu o webinar mostrando o espaço que a ciência de dados ganhou em nossa vida na pandemia. Especialista em jornalismo de dados, Marcelo apresenta informações atualizadas da Covid-19 em seu site e publicou reportagens analisando os dados na Revista Época e nos jornais O Globo e Folha de São Paulo.

Doutorando do Laboratório de Visão Computacional e Computação Gráfica (Visgraf) do IMPA, Hallison acredita que os avanços da ciência de dados aumentam a complexidade do mundo e criam desafios éticos. Para ele, devemos ter os mesmos cuidados do mundo físico no digital para não cairmos em armadilhas. A primeira lição é não ceder os dados pessoais indiscriminadamente, digitando o CPF para usar um aplicativo que mostra como você fica mais velho, por exemplo.

A segunda é não divulgar fake news, porque notícias falsas influenciam o debate político. A terceira armadilha é propagar o discurso de ódio. Ao compartilhar esses conteúdos, contribui-se para que sejam vistos como algo relevante, alimentando métricas e audiências. Só compartilhe mensagens positivas ou que você acredite. “O mundo digital influencia como você percebe o mundo real”, disse Hallison que é e co-criador do canal do YouTube Programação Dinâmica.

Educação em Ciência de Dados

Governos e especialistas estão atentos a essa nova realidade. A BNCC (Base Nacional Curricular Comum) introduziu probabilidade e estatística no Ensino Fundamental. Segundo a professora Maitê Salinas, o assunto ganhou relevância. No Ensino Fundamental I, probabilidade ocupa quase o mesmo espaço do que álgebra e geometria. Já no Fundamental 2, álgebra diminui, enquanto probabilidade cresce. No geral, os temas são equivalentes.

Se a probabilidade aumentou no Ensino Fundamental, a ciência de dados também vem ganhando espaço na universidade, com mais 300 cursos oferecidos pelo mundo. O ICMC-USP passará a ter graduação em ciência de dados em 2021. André Carvalho contou que o ensino tem forte viés prático, voltado para a solução problemas reais e usa o aprendizado ativo, em que os alunos desenvolvem projetos (método comum em universidades americanas como explicamos em outro post do blog. Confira). “A ideia do curso é o aluno pensar e conversar sobre dados sem ser internado em um manicômio”, brinca.

Carvalho afirmou que é uma área em crescimento, com trabalhadores requisitados em diferentes áreas. E qual o perfil desse profissional? O professor explica que é necessário uma boa formação básica, ser curioso, ter capacidade de analisar dados e enxergar padrões de dados, cultivar o pensamento crítico, etc. “É como ser Sherlock Holmes ou um CSI (seriados em que peritos forenses são protagonistas), você tem um problema ou tem um crime e quer saber quem foi o criminoso”, resume.

Essas características coincidem com conceitos e valores do Programa Mentalidades Matemáticas, como defender a valorização do erro e do esforço como parte do desenvolvimento do aluno. Em sala, as crianças criam hipóteses e organizam pensamentos. As atividades são coletivas e cooperativas para ampliar a capacidade de análise e argumentação. Para Maitê, é importante trazer situações da realidade, fortalecendo o pensamento crítico. 

Mas como esses conceitos são aplicados? Em um desafio apresentado por Maitê para o Ensino Fundamental 1, crianças brincam com três bolas, uma azul, uma vermelha e outra verde, que são jogadas e param uma do lado da outra. De quantas maneiras diferentes as bolas se posicionam? Os alunos debatem suas hipóteses, primeiro numa sequência aleatória, depois percebem repetições e organizam as ordens possíveis, chegando a seis possibilidades. 

Para o Ensino Fundamental 2, Maitê apresentou a atividade “Torre de Três Blocos” (disponível gratuitamente no youcubed). Pensando em uma torre de três andares, e três cores sem repetição e com repetição, quantas torres posso criar e quais são suas combinações? “Primeiro é bem visual, criando estratégias e depois entram na generalização e fazem análise combinatória”, conta Maitê. A aula termina com um desafio com combinações de placas de automóveis. Confira os detalhes nesse post do blog.

Mesmo gostando de matemática, Hallison lembra de sua dificuldade com análise combinatória, justamente por só aprendê-la no Ensino Médio. Carregou o problema em sua carreira acadêmica e teve de enfrentá-lo no mestrado. “Analisar dados precisa de muito cuidado e atenção, entender como organizar o pensamento e comunicar suas ideias. De alguma maneira isso tem de ser trabalhado na escola, desde os anos iniciais”, afirma Maitê.

Quer saber mais? Confira a íntegra no webinar na página do Facebook do Programa Mentalidades Matemáticas.

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