Em ambiente polarizado, posição política atrapalha a matemática

Ter opiniões radicais a respeito de um assunto tem impacto até na maneira de resolver problemas matemáticos. É o que revela uma pesquisa feita na Austrália com pessoas contra e a favor de medidas que visam mitigar os impactos do aquecimento global. Esse fenômeno de suspensão do raciocínio lógico visando reforçar crenças pessoais prévias se chama “numeramento motivado”. 

O estudo, realizado por Matthew S. Nurse e Will J. Grant, da Australian National University, foi feito durante as eleições federais na Austrália. Metade dos participantes declarava voto no partido Verdes Australianos, ambientalista, e metade no Partido Nacional da Austrália, simpatizante do agronegócio e cético com o aquecimento global. 

Dois problemas foram apresentados: um envolvendo um tema “neutro” (o uso de um creme para a pele) e outro envolvendo um tema “polarizado” (fechamento de indústrias termelétricas poluentes). Os dois problemas apresentavam tabelas com dados simulados semelhantes e exigiam o mesmo raciocínio lógico para avaliar para que lado pendiam as evidências. 

O primeiro problema apresentava a tabela abaixo para avaliar se a aplicação do creme reduzia ou piorava a irritação da pele.

Piorou a irritaçãoReduziu a irritação
Usaram o creme22375
Não usaram o creme10721

 

Quase metade dos pesquisados simpatizantes de ambos os partidos (48%) respondeu corretamente: a proporção de pessoas que tiveram queda na irritação foi maior entre os que usaram o creme. Ou seja, a capacidade de resolver o problema se distribui de maneira semelhante.

No segundo exercício, a tabela visava avaliar se houve maior queda nas emissões de gás carbônico onde usinas termelétricas foram fechadas ou não. Os dados da tabela eram simulados e idênticos aos do estudo anterior:

 

Não reduziu as emissões em mais de 30%Reduziu as emissões em mais de 30%
Cidades onde as usinas termelétricas foram fechadas22375
Cidades onde as usinas termelétricas foram mantidas abertas10721

 

Seria de se esperar que quase metade dos participantes, de ambos os partidos, chegassem à mesma conclusão. Só que isso não aconteceu com os céticos das mudanças climáticas. Entre eles, o nível de acerto baixou de 48% para 27%.

Para terem certeza que as soluções não tinham necessariamente relação com a habilidade matemática, os participantes foram testados para verificar como se comportavam os que eram melhores com números. O resultado surpreendeu os pesquisadores: os que tiveram os maiores pontos em matemática estavam justamente entre os que deram respostas mais tendenciosas. 

Os autores da pesquisa são professores de compreensão pública da ciência, uma área que estuda as melhores maneiras de explicar temas científicos complexos para o público geral. 

Em artigo para o site The Conversation, Will Grant refletiu sobre esses resultados: “Essas descobertas baseiam-se na teoria de que o desejo de dar uma resposta alinhada às crenças pré-existentes sobre as mudanças climáticas pode ser mais forte do que a capacidade ou desejo de dar a resposta certa.”

O conceito de numeramento motivado foi proposto em 2013, em pesquisa da Universidade de Yale. A finalidade naquela ocasião era semelhante, mas o problema polarizado era outro: a redução ou não da criminalidade após a aprovação de uma lei que proibisse o porte de armas.

A hipótese inicial era de que pessoas com mais aptidão matemática teriam mais chance de acertar a resposta com base nos números apresentados, mesmo se fossem contra sua opinião. Só que essa hipótese também não funcionou. 

Segundo Kahn, o experimento mostra como as evidências científicas, nesses casos, são jogadas pela janela quando contradizem opiniões pessoais. Essas opiniões geralmente se baseiam em temas que as pessoas percebem como centrais para sua identidade e para o posicionamento dos grupos com os quais se identificam. É legítimo ter opiniões; complicado mesmo é suspender a lógica em nome delas. 

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