Com abordagem matemática inovadora, colégio público dá salto em desempenho

05 de dezembro

Em parceria com Instituto Sidarta, Escola Henrique Dumont Villares promove autonomia e engajamento e tem excelentes resultados exames estaduais

O burburinho da troca de ideias sobre uma atividade matemática domina a sala de aula da Escola Estadual Henrique Dumont Villares, até que a professora levanta o braço direito. Outros alunos a acompanham no gesto, e logo o silêncio vence o barulho, e todos se voltam para ela. “Vamos fazer um desafio de matemática?”, pergunta a professora. A atenção concentra-se na lousa: “Quanto é 576 dividido por 8? Em grupos de quatro, os alunos do terceiro ano do Ensino Fundamental 1 mergulham na tarefa.

Desde 2017, o Instituto Sidarta, responsável por trazer o Programa Mentalidades Matemáticas para o Brasil, faz uma parceria com a escola pública com o apoio da Associação Beneficente Maria & Tsu Hung Sieh. “O desafio era: como criar aulas diferentes, que incentivem o trabalho em grupo? Queria uma maior interação na aprendizagem. Estava incomodada com o estereótipo do professor que comanda, que é o centro de tudo, e a criança tem um contato passivo com o conteúdo” recorda-se Nádia Brocardo, coordenadora pedagógica da escola pública, no Jaguaré, zona oeste de São Paulo. Ao fim do terceiro ano de parceria, os resultados são visíveis no dia a dia e no salto no desempenho no SARESP (Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo).

Ao conhecer o Mentalidades Matemáticas e a proposta de formação de professores, Nádia animou-se com a proposta de aliar teoria e prática, fundamentadas pelos estudos em educação da professora Rachel Lotan, da Universidade de Stanford, na Califórnia, EUA. Ao mesmo tempo, a abordagem matemática aplica conhecimentos de Neurociência e aprendizagem da educadora matemática Jo Boaler, autora de nove livros, dentre eles “Mentalidades Matemáticas”, e co-fundadora da plataforma Youcubed.

Dieckmann também ministrará uma oficina de desenvolvimento de atividades abertas, criativas e visuais para as aulas de Matemática e se apresentará no Seminário de Estudos em Epistemologia e Didática (SEED), na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.

A oficina Práticas de Mentalidades Matemáticas acontecerá em dois encontros, nos dias 17 e 31 de agosto, sábado, no Instituto Sidarta, em Cotia (SP). O encontro contará com 40 participantes, dentre eles professores de escolas públicas.

O projeto começou em 2017, inicialmente no 1º, 2º e 3º anos do Ensino Fundamental. Em 2018, foram incorporados 4º e 5º anos. A formação de professores na escola com profissionais do Mentalidades Matemáticas acontece duas vezes por mês. Os educadores recebem recursos didáticos, assistem a vídeos, se familiarizam e aplicam atividades disponíveis no Youcubed (site de divulgação do programa Mentalidades Matemáticas). No processo de formação, os professores passam por ciclos de planejamento, observação e devolutiva da prática de sala de aula, orientados por
profissionais do Instituto Sidarta.

“Temos de mudar a imagem de que trabalho em grupo é bagunça. Sendo assim, os professores passam por um processo de modelagem. Eles sentam em grupos, e vivenciam a mesma experiência dos alunos. Cada um tem seu papel. Eles percebem a importância da corresponsabilidade e da colaboração”, afirma Telma Scott, coordenadora pedagógica do Instituto Sidarta.

A observação de aula é um dos momentos mais enriquecedores da formação. “Imagine um professor há 20 anos no magistério, acostumado a um tipo de atuação. Não é fácil transformar sua prática. Hoje, muitos não conseguem mais atuar como antigamente. E os alunos ficaram muito mais engajados”, observa Nádia Brocardo.

“O observador vai à aula para apoiar, não para fazer julgamentos. A aula é uma ferramenta de autorreflexão para professor”, explica Telma. Uma professora estava resistente e não acreditava em ensinar com atividades diversificadas. Surpreendeu-se e admitiu que o novo formato de aula deixou a classe menos estressada. Outra professora estava nervosa após recusar por semanas a presença do observador. Ao término da aula, emocionada, comemorava o engajamento dos alunos.

Segundo a coordenadora da escola, o impacto da aplicação da nova abordagem pelos professores tem sido muito positivo. Eles ganharam mais segurança com a presença dos profissionais do Sidarta ao perceber que todos “estão no mesmo barco”. Para Nádia, os educadores agora percebem a aprendizagem como uma construção conjunta de conhecimento, em que as crianças aprendem umas com as outras. Segundo ela, os professores passaram a se dedicar mais, a preparar aulas melhores e mudaram a postura, transformando-se em mediadores.

“Eu não gostava de matemática e mudei meu olhar. Hoje, vejo como algo gostoso de fazer” diz o professor Max Santos, licenciado em Língua Portuguesa e Inglês da escola Henrique Dumont Villares A formação do Mentalidades Matemáticas lhe deu confiança para ensinar matemática até no Ensino Fundamental 2. “Entendi que basta tentar. Hoje me arrisco mais. A mudança foi entender que a matemática pode ser criativa”, disse.

Resultados

Os alunos da Escola Henrique Dumont Villares já tinham bons resultados nas avaliações de ensino, portanto, melhorá-los era um desafio da parceria com o Instituto Sidarta. E os resultados foram acima das expectativas.

Em 2016, apenas 16,7% dos alunos do 3º ano tinham desempenho “avançado”, segundo o SARESP. Em 2018, 52% dos alunos do 3º ano atingiram o desempenho avançado, e outros 40% o nível adequado.

“Sinto que estou me desenvolvendo, principalmente em Matemática”, conta Ray dos Santos, aluno do 3ª ano do ensino fundamental da escola estadual no Jaguaré, que sonha ser advogado. Alagoano, ele está em São Paulo há dois anos, e explica as diferentes maneiras de aprender: “Antes eu só lia os números, decorava, não contava. Hoje estou pensando matemática”, conclui Ray, que já ficou um ano sem estudar.

Mais do que excelentes resultados, Nádia Brocardo afirma que a parceria constrói salas de aula equitativas, onde todos têm o direito de aprender. Ela reconhece alunos muito mais engajados, porque percebem sua autonomia na aprendizagem e a colaboração como estratégia. “Antigamente, os que se sentavam à frente da classe eram privilegiados, os outros ficavam para trás. Agora todos estão juntos”, completa a coordenadora pedagógica.