Meninas que ganharam prêmio Asimov falam da vida e do aleatório

Prêmio de literatura de divulgação científica, promovido pela Unicamp, avaliou resenhas de livro sobre probabilidade

Três garotas de Campinas, estudantes de diferentes escolas, venceram a primeira edição brasileira do prêmio Asimov com resenhas do livro “O Andar do Bêbado”, de Leonard Mlodinow. 

A obra trata do papel do acaso no mundo e a história da probabilidade, tudo explicado com simplicidade e um sorriso no rosto. Sucesso há mais de dez anos, o livro teve mais de 180 mil exemplares vendidos só no Brasil. Em entrevista dada ao iG quando a primeira edição foi lançada no Brasil, Mlodinow disse que o acaso mesmo não existe. O que existe é o desconhecimento dos fatores relevantes: “Se uma pessoa for atravessar a rua e for atropelada, se ela soubesse que viria naquela hora um motorista bêbado, poderia evitar”, disse.  

O livro foi um dos cinco selecionados pelo Instituto de Estudos Avançados da Unicamp (IdEA) para que estudantes do ensino médio resenhassem. Criado na Itália, e agora trazido para o Brasil, o prêmio busca estimular adolescentes a praticar a leitura e a avaliação de livros de divulgação científica, com a orientação de seus professores.

Júlia Vidoto, 16 anos, gostou tanto do livro que está quase decidida a estudar estatística na universidade. Mariana Rigoletto, 18, quer ser jornalista, e por isso adorou a experiência da resenha. Silvana Carvalho, 18, costumava ler apenas livros de ficção, mas o prêmio fez com que saísse da zona de conforto e considerasse Mlodinow uma leitura necessária. 

Conheça as três autoras abaixo, em ordem alfabética.

Júlia Ramírez Vidoto, do Colégio Objetivo de Campinas

Aos 16 anos, ainda lhe falta algum tempo para prestar vestibular, mas a aptidão para a matemática a fez participar diversas vezes de olimpíadas da disciplina. Para isso, contou com o incentivo de professores desde o sexto ano – e o mais importante foi o tanto que se divertiu. “Não era só a matemática da escola que eu curtia, mas a Olimpíada trazia coisas que a escola não ensinava, exigia um raciocínio lógico diferente”, disse. 

Júlia nunca comprou o discurso da separação entre a matemática e as artes. É uma excelente pianista, e no Facebook é possível encontrar vídeos seus tocando. O que lhe chamou a atenção no livro foi sobretudo a arte que Mlodinow empregou para falar da matemática. “Para divulgação científica, a literatura ajuda muito a matemática, por exemplo. Acho isso fascinante. Como gostava de matemática e de ler, acho que foram duas coisas que se juntaram bem”, disse.

Com a obra de Mlodinow, passou a conhecer um pouco mais sobre estatística e a pensar até mesmo em passar quatro anos de sua vida estudando a ciência da aleatoriedade. “A estatística no geral está começando a ficar mais conhecida agora, apesar de ser muito importante para várias áreas da nossa vida”, disse. “Logo após ler o livro, comecei a me interessar mais, pesquisei e agora é um dos cursos que mais quero fazer”.

Mariana Torezan Silingardi Rigoletto, do colégio Imaculada, de Campinas

Medalha de prata na olimpíada de Ciências de 2019, Mariana começou a gostar de ler com Harry Potter e tem um clube de livros com seus colegas. Aos 18 anos, nunca teve dificuldades com a matemática, até chegar ao ensino médio. 

“Essa parte de probabilidade, do aleatório, eu sempre achei muito legal, sempre fez muito sentido”, diz, por relacioná-la com a vida real. “A parte de dados, análise combinatória, probabilidade é uma matemática mais palpável.” Ler Mlodinow, diz, ajudou a compreender melhor a matemática da escola.

“Realmente não é uma coisa fácil. E o livro explica, não de um jeito muito óbvio – porque não é muito óbvio – mas com palavras muito fáceis e ajuda bastante”, afirma.

Em janeiro, ela se prepara para enfrentar uma maratona de vestibulares para o curso de jornalismo, com provas em todos os finais de semana: PUC Campinas, PUC São Paulo, Cásper Líbero, Unicamp, USP, Unesp e o Enem. Talvez se mude para a capital, mas só depois da vacina. 

Silvana Oliveira Carvalho, da Escola Estadual José Maria Matosinho, de Campinas

Aos 18 anos, está concluindo o ensino médio e seu sonho desde criança era estudar medicina – mas ainda não vai ser agora que prestará vestibular. A única estudante de escola estadual entre as três premiadas precisará se dedicar ao trabalho no futuro imediato. 

A matemática que aprendeu na escola não é algo que Silvana considere exatamente uma de suas aptidões. Mas aí veio o prêmio Asimov e colocou Mlodinow em suas mãos. 

“O que me atraiu no livro não foi apenas a abordagem de tópicos da matemática e sim a maneira como isso foi feito, com fluidez e até mesmo uma dose de humor”, disse. “Acho que dessa forma mais pessoas conseguem se identificar e se atrair pelo tema”.

Ler é uma de suas atividades favoritas, especialmente ficção. Foi por isso que suas professoras a incentivaram a participar do prêmio. Escreveu e reescreveu sua resenha, sempre ressabiada com a possibilidade de não estar boa o bastante. Um júri independente formado por professores, pesquisadores e jornalistas discordou, sem ter qualquer indicação de quem eram os estudantes que escreviam.

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