Programa de Stanford usa Neurociência para ensinar matemática de forma inovadora

Alunos brasileiros se tornam protagonistas e melhoram desempenho com ‘Mentalidades Matemáticas’, aplicado pelo Instituto Sidarta

Ainda há quem acredite que matemática é “um dom” ou que “só pessoas muito inteligentes conseguem compreendê-la”. Desconstruir esses mitos é o desafio do Programa “Mentalidades Matemáticas”. Baseada em estudos em Neurociência, a abordagem formulada por professores da Universidade Stanford (EUA) e aplicada no Brasil pelo Instituto Sidarta , emprega ferramentas visuais, criatividade e colaboração no ensino da disciplina para demonstrar que todos são capazes de aprender matemática em alto nível.

Sete em cada dez estudantes brasileiros de 15 anos não sabem fazer contas básicas, como somar ou dividir, segundo o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), e o Brasil ocupa a 66ª posição entre 70 países que estão nesta avaliação matemática.

Em 2016, o Instituto Sidarta trouxe ao Brasil o Programa Mentalidades Matemáticas para sua Escola de Aplicação, o Colégio Sidarta, em Cotia (SP). Com o objetivo de contribuir na melhora dos resultados do Pisa e de outros exames que mostram o baixo desempenho dos brasileiros em matemática, o instituto tem adaptado a abordagem à realidade brasileira e promovido pesquisas e seminários sobre o tema. Em 2018 e 2019, realizou duas edições do Seminário Mentalidades Matemáticas, para mais de 500 professores, em São Paulo.

De acordo com a professora da Escola de Educação da Universidade de Stanford e cofundadora da plataforma Youcubed, Jo Boaler, a proposta é ensinar a “matemática multidimensional, como um assunto acessível e flexível. Os alunos podem trazer suas próprias ideias e aplicá-las para resolver os problemas matemáticos”. (1)

Estudos contemporâneos de Neurociência apontam que o cérebro cresce e muda continuamente. Das cinco áreas ativadas quando pensamos de forma matemática, duas estão no campo visual. Ao trabalhar com desenhos, imagens e proporções, exercita-se o cérebro em regiões pouco usadas no estudo da disciplina, o que reforça a compreensão.

O poder dos erros e das dificuldades

Na prática, a abordagem empodera as crianças em atividades desafiadoras que promovem a aprendizagem. O programa se apoia na investigação e colaboração entre os alunos, que se tornam protagonistas do processo. São eles que propõem sugestões, vão à frente da sala explicar seu raciocínio e a forma de chegar à solução do problema. O professor atua como um mediador. Assim, os alunos aprendem que existem muitos caminhos para resolver o mesmo problema matemático.

E o erro é visto como natural, parte do processo de aprendizagem. “O erro é nosso amigo”, disse um menino do 2º ano do Colégio Sidarta à professora.
A relação dos professores com a disciplina, sobretudo do ensino básico, é outro alvo do projeto. A abordagem incentiva que sejam investigadores de conhecimento, mediadores de curiosidades e que desenvolvam sua identidade matemática.

“Nunca gostei especificamente de matemática, não achava que era uma ‘pessoa de matemática’. Mas hoje, a matéria que mais gosto de trabalhar com as crianças é matemática! E elas sentem isso. No início do ano, a média da turma era 6, hoje é 8”, disse Valdirene Mariano Corrêa, professora do 4º ano do Escola Estadual Henrique Dumont Villares.

Todos são capazes de aprender matemática em altos níveis

Os resultados já comprovam a eficiência da prática tanto com os alunos como com os professores. Além de ser aplicado desde 2016 no Colégio Sidarta, o Programa Mentalidades Matemáticas foi introduzido em 2017 na escola pública onde Valdirene ensina.

O MM foi aplicado inicialmente em 2017 no 1º, 2º e 3º anos. Já no primeiro ano, o desempenho dos alunos melhorou consideravelmente, como demonstram os resultados do SARESP (Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo).

Nas salas de aula do 4º e 5º anos da escola estadual, o trabalho começou em 2018, também com excelentes resultados. “São crianças protagonistas. Elas não têm medo do erro. E os professores mudaram a postura e passaram a estudar e se dedicar mais”, afirmou a coordenadora pedagógica da escola, Nádia Brocardo.

A criatividade na matemática

As mentalidades matemáticas já fazem parte do dia a dia das duas escolas. É comum ouvir frases como “meu cérebro está doendo! Acho que ele deve estar crescendo” e “como você pensou sobre este problema?” dentro das salas de aula. “Hoje, professores e alunos afirmam que se sentem mais confiantes em relação à disciplina. A matemática não assusta mais. No lugar da ansiedade, problemas desafiadores atiçam a curiosidade dos jovens aprendizes que usam do seu raciocínio lógico e de sua criatividade para construírem possíveis soluções,” diz Ya Jen Chang, presidente do Instituto Sidarta.

https://desafiosdaeducacao.grupoa.com.br/jo-boaler-mentalidade-progressiva-melhora-aprendizado/

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2 Comentários

  • Excelente! Mostrar aos alunos que o erro faz parte do aprendizado e que não se deve tê-lo como um estigma que determina o fracasso é genial!
    Thomas Edson ao ser questionado sobre ter feito mais de mil tentativas para inventar a lampada observou que o mais importante era que no fim além de ter dado certo, inventara a lâmpada, descobrirá mil formas de não fazê-la!

  • Ahhh…como fico encantada quando leio que o” erro é amigo”! As crianças precisam compreender que errar faz parte de aprender, que o erro sinaliza que algo se perdeu no processo e necessita ser refletido. Onde o estudante se percebe como protagonista deste pensar , sendo ativo e principalmente ouvido ao expor o caminho pensado.❤ Amo ouvir os multicaminhos percorridos até o processo final.

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