Trabalho em grupo valoriza colaboração e autonomia, diz educadora Rachel Lotan

Para educadora Rachel Lotan, quanto mais interação, mais aprendizagem

Uma sala de aula democrática, onde cada aluno tem sua voz respeitada e sua responsabilidade definida. Um ambiente de segurança e confiança, onde as crianças expõem suas ideias com espontaneidade. As diferenças são uma riqueza cultivada por todos. O professor deixa de interferir e passa a mediar as relações com o conteúdo, incentivando os estudantes a pensarem por eles próprios. Parece utopia? Essa é abordagem de trabalho em grupo desenvolvida pela professora Rachel Lotan, da Universidade Stanford, e adotada pelo Programa Mentalidades Matemáticas

A educadora norte-americana afirma que há evidências científicas que estar em grupo e interagir com pessoas diferentes, que podem ter outras ideias, contribui para o desenvolvimento intelectual e da linguagem, já que é preciso argumentar, ouvir, interpretar, chegar a um consenso. Quanto mais interação, mais aprendizagem. E o papel do professor, como mediador, é incentivar a autonomia, cooperação e participação equitativa de todos dentro do grupo.

Pela metodologia de Lotan – que junto a socióloga Elizabeth Cohen publicou o livro “Planejando o Trabalho em Grupo – Estratégias para Salas de Aula Heterogêneas” (Editora Penso) -, desmonta-se a sala de aula de carteiras enfileiradas uma atrás das outras, reorganizando-a em grupos de 3 a 5 alunos. Os estudantes agora estão frente a frente. Mas não basta reuni-los e deixar que eles executem uma atividade que cada um poderia resolver sozinho. É preciso propor para os alunos atividades abertas e desafiadoras, que exijam múltiplas habilidades para que sejam resolvidas. Para agilizar a gestão do grupo, cada integrante tem um função a cumprir, uma responsabilidade com os outros colegas. São os papéis para o trabalho em grupo. 

O Facilitador garante que o grupo inicie o trabalho rapidamente, certifica-se que todos compreenderam a atividade, assegura que todo grupo leia a tarefa antes de começar, mantém a união até completar a atividade. O Monitor de Recursos coleta e devolve materiais para o grupo, chama o professor para fazer um pergunta, monitora o tempo e o avanço do trabalho. O Repórter certifica-se que cada membro registre as informações, organiza e apresenta o relatório ou cartaz para a classe e garante que todos saibam explicar a resolução da tarefa. O Harmonizador encoraja a participação e o consenso, reforça uso das normas, garante que cada um realize seu papel e que todas as ideias são ouvidas.

Essa forma de trabalhar em sala de aula é rotina no Colégio Sidarta, escola de aplicação do Instituto Sidarta. A professora Maitê Nanni Fracassi vê no dia a dia como o trabalho em grupo é benéfico para os alunos. Ela conta que um menino com desempenho regular estava em um grupo com outras três meninas. Uma delas era reconhecida como excelente aluna, com as melhores notas da classe, tanto que muitas vezes os grupos tentavam se apoiar nela para fazer os exercícios. Em uma das atividades de matemática, esse aluno teve uma grande ideia para a resolução. E a menina, com as melhores notas da turma, reconheceu o trabalho dele e, desempenhando o papel de repórter, contou para toda sala a estratégia do menino. Sentindo-se capaz, o aluno se transformou. Até sua postura corporal mudou, pois tinha os ombros retraídos. Passou a participar ativamente e contribuir muito mais nas aulas. 

O papel do professor é garantir a participação equitativa e um aprendizado relevante e rigoroso. Ao invés de concentrar, ele delega autoridade para que aos alunos se esforcem sozinhos e exponham-se ao erro, compreendido como parte do processo de aprendizagem. Por isso as atividades propostas devem ser abertas, com múltiplas habilidades intelectuais e que exijam interdependência positiva e responsabilidade individual. 

“A intervenção é bem mais cuidadosa, feita com perguntas, o que traz um conhecimento muito mais profundo e muito mais sólido para os alunos. Só que é um processo, o investigar, o questionar, o refletir, dá muito mais trabalho que uma informação pronta. Para o professor é um desenvolvimento muito grande, porque fazer boas perguntas, bons questionamentos, não é tão simples. É preciso um olhar muito generoso para não desconstruir o que está sendo construído pelos alunos, não desencorajá-los e ao mesmo tempo valorizá-los e mostrar que são muito potentes”, analisa Maitê

Isso quer dizer que o trabalho em grupo deve substituir a aula expositiva? Para Lotan não, porque existem informações que devem ser passadas dessa maneira. Porém ela aconselha uma duração de no máximo 15 minutos, uma apresentação com imagens, não mais que quatro slides. Depois deixe as crianças interagirem, confiantes na autonomia de seu aprendizado.

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