“Na vida e no trabalho não resolvemos problemas, mudamos padrões”, diz Charles Bezerra

A pandemia está devastando economias, mudando a rotina das famílias e o ritmo das cidades. Enquanto tentamos nos adaptar a essa realidade, as inovações tecnológicas se aceleraram e o mercado de trabalho se reestrutura para acompanhar essas transformações. “Acredito que em toda crise existe uma oportunidade, e são nesses momentos que a inovação mais acontece”, afirmou Ya Jen Chang, presidente do Instituto Sidarta, durante um webinar que discorreu sobre a importância da matemática no mercado de trabalho.

O evento “O mercado de trabalho e o papel da matemática pós-pandemia” aconteceu na última quarta-feira (26) no Facebook do Mentalidades Matemáticas. Além de Ya Jen, participaram do debate Antonio Carlos Pipponzi, presidente do Conselho de Administração da Raia Drogasil, e o cientista da inovação Charles Bezerra. Mediado pelo jornalista Marcelo Soares, diretor da Lagom Data, o encontro é o terceiro da série “E a matemática com isso?”, iniciativa do Instituto Sidarta, em parceria com o Itaú Social e apoio do IMPA. Confira alguns destaques do evento a seguir.

O futuro do trabalho e a matemática

<a href='https://www.freepik.com/photos/phone'>Phone photo created by rawpixel.com - www.freepik.com</a>
Imagem: Freepik

“Estamos vivendo a maior revolução da inteligência. Pela primeira vez, as máquinas são capazes de automatizar a abstração, simulando neurônios na Inteligência Artificial”, afirma Charles Bezerra. Estudos apontam que nas próximas décadas, 50% das atividades serão automatizadas. Ele prevê que um médico não vai ser capaz de examinar melhor que uma máquina e que fazendas poderão ser dirigidas pelos novos equipamentos. 

Charles, que resume seu trabalho a lidar com coisas novas ou que ainda não existem no design de produtos e serviços, avalia que a próxima onda serão os algoritmos genéticos, com capacidade criativa e sensitiva. Ele lembra que o escritor Carl Sagan dizia que um mundo dominado pela ciência implica que as pessoas entendam a ciência. “Por isso temos que evoluir nessa pauta, não podemos deixar as pessoas vulneráveis. Precisamos usar a matemática de forma relacional, ajudando nossos alunos a abstrair com cada vez mais qualidade.” 

Essa revolução é nítida nos 43 anos de vida profissional de Antonio Carlos Pipponzi. Quando começou a comandar o negócio de seu avô, a empresa tinha sete lojas e era pouco profissionalizada, “era barriga no balcão”. Transformou-se na maior de rede de farmácias do país. Nesse processo a matemática foi essencial e a ciência de dados aponta os caminhos para o futuro. “Hoje, a grande riqueza de uma empresa são os dados, que são usados para cuidar da saúde das pessoas”, considera.

Com 35 milhões de clientes, sua atuação é muito mais analítica, e matemáticos e cientistas de dados são tão imprescindíveis quanto os farmacêuticos. O próximo objetivo da empresa é compartilhar essa base de dados com outros sistemas, como planos de saúde, clínicas e laboratórios de exames, para oferecer saúde mais inclusiva, a um custo menor. “Queremos deixar de ganhar com a doença para ganhar com a promoção do bem-estar”, sintetiza. 

Essa mudança na lógica para enfrentar os desafios são as características de uma sociedade complexa, o que afeta as ações de empresa e pessoas. Influenciado pela falseabilidade do filósofo austríaco Karl Popper, Charles tenta destruir uma hipótese, ao invés de comprová-la. Para resolver um problema, aposta na mudança de um padrão. “Um casamento não tem problema, tem um padrão, a educação de uma criança não é um problema, existe um padrão, e temos que entender esse padrão e perceber como podemos influenciar sua evolução”, diz.

O papel da educação

<a href='https://www.freepik.com/photos/hand'>Hand photo created by jcomp - www.freepik.com</a>
Imagem: Freepik

Em vídeo gravado, Marcelo Viana, diretor do IMPA, destacou a importância da matemática na construção da cidadania e na produção econômica. Em países desenvolvidos, as profissões matematizadas representam cerca de 15% do PIB. No Brasil, esse valor chegaria a R$ 1 trilhão. “Por isso precisamos prover conhecimento aos nossos jovens para minerar essa riqueza”, aponta Viana.

Apostar na juventude é um alicerce para o crescimento do país, como mostrou Antonio Carlos. Em 1993, a empresa decidiu mudar o perfil de seus funcionários e contratar somente jovens para o primeiro emprego. Grande parte de seus 39 mil funcionários começaram no estágio nível 1. “Mas esse jovem tem grande dificuldade com lógica, para organizar seu raciocínio e enviar um texto. Isso é matemática. É um grande desafio para todos que defendem a disciplina como meio de melhorar o país.”

Segundo o PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), para trabalhar como cientista de dados, por exemplo, é necessário o nível 4 de entendimento de matemática. Entre 2003 e 2018, a avaliação mostrou que 70% dos jovens de 15 anos no Brasil não alcançaram o nível 2, o mínimo necessário para exercer a plena cidadania. Seriam 35 milhões de pessoas entre 15 a 29 anos, atualmente. Somente 2 milhões de brasileiros teriam o nível 4 e levaria 75 anos para alcançar o nível médio dos países desenvolvidos como a Coreia, com 40% dos jovens com esse entendimento.

Inovação na sala de aula

Para melhorar esses dados, é fundamental investir em educação com um olhar inovador. “Na escola não aprendemos que a matemática é uma ferramenta para criatividade”, criticou o mediador Marcelo Soares. Ensinar uma matemática visual, aberta e criativa é o objetivo do programa Mentalidades Matemáticas, que foi apresentado no webinar por Ya Jen. 

Ela apontou que várias pesquisas na última década demonstram que bebês a partir de 8 meses de idade já têm noções de estatística. Se todos podem aprender, há que buscar caminhos pedagógicos para despertar esse potencial.

Uma atividade com origamis em sala de aula pode conectar as crianças com a mais avançada ciência. A prática oriental foi inspiração para a NASA desenvolver um sistema solar. Outro projeto criou um robô em formato de origami para entrar no sistema digestivo e evitar cirurgias. “Gosto de olhar a matemática com a ciência dos padrões”, afirma Ya Jen. Esses padrões estão em todos os lugares, no supermercado, na tecelagem, na natureza, na agricultura, na dança e até cortar o cabelo pode ser uma aula de geometria.

No fim do webinar, Ya Jen trouxe a experiência do Curso de Férias do Mentalidades Matemáticas realizado em janeiro com alunos de escola públicas. Após 10 dias, os estudantes saíram empoderados, entendendo que todos podem aprender matemática e que errar faz parte do processo de aprendizagem. Em termos práticos, eles evoluíram o equivalente a 1,3 ano de escolaridade em conceitos matemáticos. Um salto em poucos dias e a sinalização de que é possível mudar o cenário da educação no Brasil. “É possível mudar, acreditamos, porque todos somos matemáticos”, conclui. 

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on whatsapp
WhatsApp

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *