Aula vira obra de arte com participação dos alunos, aponta Juliana Nascimento

12 de agosto

Professora relata experiência com Mentalidades Matemáticas

Na infância, Juliana Nascimento chegou a se distanciar dos estudos por não conseguir ter diálogo e apoio para enfrentar dificuldades, principalmente em matemática. Hoje, professora do Ensino Básico da Escola Estadual Henrique Dumont Villares (SP), sente que realizou um sonho. “Aos 8 anos, fiquei encantada com o brilho no olhar de uma professora e pensei: ‘quando crescer quero ter esse mesmo brilho’. Consegui”, afirma. A recordação veio à tona enquanto preparava sua apresentação para o webinar “Matemática e Gênero na mesma equação”, promovido pelo Instituto Sidarta. 

Juliana lembra que, como aluna, o fascínio pelo conhecimento deu lugar ao distanciamento e, ao longo dos anos, passou a se esconder nas últimas fileiras. “A maneira como os professores ensinavam não fazia sentido pra mim.” Dificuldades com os novos conteúdos, decorar a tabuada, repetições, chamada oral. Sem confiança para encarar os desafios, ainda precisou lidar com rótulos e preconceito, temas que não eram debatidos pela escola. “É trágico um aluno pensar que é incapaz”, define. 

Mesmo na faculdade de Pedagogia, a matemática continuou sendo um “bicho de sete cabeças”, e os professores reproduziam o ensino tradicional de sua infância. Depois da graduação, em 2012, passou a trabalhar como professora-substituta polivalente no ensino público, lecionando cada ano em uma escola diferente, com metodologias e planejamentos próprios. “Patinei bastante ao longo da carreira. Nas aulas de matemática, não havia uma metodologia diferenciada ou repertório para enfrentar as dúvidas do alunos. E eu tinha medo de arriscar.”

Ela desenvolveu esse apreço ao risco ao conhecer o Programa Mentalidades Matemáticas na Escola Estadual Henrique Dumont Villares. Em geral, há uma cobrança de o professor ser obrigado a saber tudo. Mas na abordagem, ele passa a ser um mediador de conhecimento. 

Professora Juliana Nascimento ao lado de Jack Dieckmann e seus alunos.

Do esboço ao fim do processo: o conhecimento como uma obra de arte

“É fantástico acompanhar como o conhecimento é construído em sala de aula: é como uma obra de arte, no início é um esboço, vão surgindo novas ideias, novas paisagens, a criança pode falar, se expor, ser ouvida, explicar suas ideias, contar suas vivências. Cada dia é diferente, é uma aula onde tudo é possível, pois é trilhada com naturalidade. É um processo transformador, uma emoção muito grande ser o instrumento dessa realização”, resume.

Dentre os conceitos da abordagem, Juliana destaca o trabalho em grupo, da professora Rachel Lotan¹ (Universidade de Stanford). A educadora já fazia trabalhos em grupo em outras disciplinas, mas tinha dificuldades em organizar e engajar os alunos. Com a definição dos papéis para cada integrante, os alunos se responsabilizam e têm mais consciência de sua atuação. 

Para Lotan, professora da Universidade Stanford (EUA), quanto mais interação, maior é a aprendizagem. O papel do professor é incentivar a autonomia, cooperação e participação equitativa de todos dentro do grupo. Cada aluno tem seu papel na atividade. O Facilitador se certifica de que todos compreenderam a tarefa. O Harmonizador incentiva a participação e o consenso. O Repórter organiza e apresenta o relatório ou cartaz à classe. O Monitor de Recursos coleta e devolve materiais, monitora o tempo. “As crianças gostam de desempenhar os papéis. O ganho de autonomia é enorme, eles se tornam protagonistas do aprendizado”, afirma. 

“A matemática é exata, mas os caminhos são diversos, e o tradicional é só um deles. Uma atividade como as ‘Conversas numéricas’² faz todo sentido para as crianças”. Em conversas numéricas, os alunos são desafiados a fazer cálculos mentalmente e a apresentar suas estratégias, visualmente e numericamente. Como há várias formas para chegar ao resultado, a professora debate os diferentes caminhos, inclusive quando a resposta não estiver correta. Acesse o Youcubed para assistir vídeos sobre esta estratégia de ensino.

A parceria entre o Instituto Sidarta e a Escola Henrique Dumont Villares começou em 2017, com o apoio da Associação Beneficente, Maria e Tsu Hung Sieh (ABMTHS), inicialmente nos 1º, 2º e 3º anos do Ensino Fundamental, com os professores participando de uma formação em Mentalidades Matemáticas. A experiência tem tido resultados animadores, com um salto de desempenho na avaliação dos alunos no SARESP (Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo). “Com Mentalidades Matemáticas passei a me sentir mais segura. Sinto que cumpro meu dever, e ao mesmo tempo, tenho muito que aprender”, conclui Juliana. 

“É um processo transformador, uma emoção muito grande ser o instrumento dessa realização”, relata Jú sobre o ensino da matemática com base na abordagem MM.

Não perca: próximo webinar mostra resultado da pesquisa pós-Curso de Férias

Um grupo de 70 alunos de escolas públicas de Cotia (SP) mostrou que podemos dar um salto de aprendizado num curto período de tempo. Eles participaram do Curso de Férias do Mentalidades Matemáticas, em janeiro de 2020. Durante 10 dias, tiveram contato, pela primeira vez, com a abordagem que ensina uma matemática aberta, visual e criativa. O resultado dessa experiência você vai conhecer amanhã (13), no webinar “Curso de Férias Mentalidades Matemáticas: resultados e evidências”, às 17h, no Facebook do Mentalidades Matemáticas.

Apresentado por Jack Dieckmann, diretor do Centro de Pesquisas Youcubed da Universidade Stanford (EUA), o webinar contará com Regiane Picinin, instrutora do Curso de Férias, Anna Karina da Col, formadora do Programa Mentalidades Matemáticas; e a participação especial de Juliana Yade, especialista em educação do Itaú Social. A mediação ficará com Telma Scott, coordenadora do Ensino para Equidade do Instituto Sidarta. O encontro faz parte da série de webinários “Multiplicando Saberes”, promovida pelo Instituto Sidarta em parceria com o Itaú Social, e com apoio do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA)Clique aqui para assistir a estreia da série. 

1. COHEN, Elizabeth; LOTAN, Rachel. Planejando o trabalho em grupo: estratégias para salas de aulas heterogêneas. Porto Alegre: Penso/Instituto Sidarta, 2017

2. HAMPHREYS, Cathy; PARKER, Ruth. Conversas Numéricas: estratégias de cálculo mental para uma compreensão profunda da matemática. Porto Alegre: Penso/Instituto Canoa, 2019.